adília
adaptação de textos de adília lopes


Marianne, je t'aime
Chamilly, je t'aime
Milly
Milly, je t'aime

*

Milly chéri
tenho coisas
para te dizer
de viva voz
cartas de amor
nunca mais
agora só escrevo
cartas comerciais

Não quero
ter filhos
gosto muito
de foder
contigo
e com outros
mas de bebés
não gosto
uma vez
por outra
tem graça
mas sempre
não
os bebés deprimem-me
se engravidar
faço abortos
por muito
que me custe
e custa-me
muito
(um bebé é dom
do Espírito Santo)

Ficas
no castelo de Beja
e eu aqui
no convento
com vento
(as janelas
fecham mal
estão empenadas)
há uma passagem
subterrânea
como nos romances
que liga
castelo e convento
o outro é o Céu
com peúgas
e cuecas sujas

Antes de chegares
pensava assim
mesmo que Milly volte
não quero foder
o feitio das unhas dos pés
e a implantação dos cabelos
na nuca
do meu Milly chéri
mais tarde
ou mais cedo
vão-me meter nojo
nunca mais danço
nunca mais dou beijos
mas quem não pensa
em foder
está fodido
mas agora
quero foder contigo

Portanto Milly chéri
és muito bem vindo
a mulher ( eu )
deixa
pai e mãe
e apega-se
ao homem ( tu )
e são ambos
uma carne

 

A propósito de estrelas

Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas

 

Adormecer
(com algumas coisas de Maria Teresa Horta)

Preciso de te tocar
caule
gato
corda
mão
abraço-te
a tua roupa
tu
não te divulgo
o teu nome
os teus olhos azuis
a tua gentileza
espero que os partilhes
com alguém querido
como os partilhaste
comigo
amante querido
que não perco
que não deito fora
os meus amantes
não são Gillettes
( não são de usar
e deitar fora )
embora eu seja
uma poetisa pop
e não tenha amantes
gosto de adormecer
a lembrar-me de ti
de como me sorrias
de como me olhavas
se os meus poemas
contribuíram para isso
são excelentes
 

 

Prémios e comentários

Em 72 recebi
o prémio literário
dos pensos rápidos Band - Aid
o prémio foi uma bicicleta
às vezes penso
que me deram uma bicicleta
para eu cair
e ter de comprar pensos rápidos
Band - Aid
é o que eu penso dos prémios literários
em geral

*

Clarice Lispector, a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos

 

A sereia das pernas tortas

Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia como era bonita.
Quando era bonita, as pessoas diziam-lhe:
- Eu amo-te.
E iam com ela para a cama e para a mesa.
Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:
- Não gosto de ti.
E atiravam-lhe caroços de azeitona à cabeça.
A mulher pediu a Deus:
- Faz-me ou bonita ou feia de uma vez por todas e para sempre.
Então Deus fê-la feia.
A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais gostavam sempre dela, tanto quando era bonita com quando era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço, estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a mastigar.
Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que pescou o peixe.
Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe, descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe morreu.
As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei apaixonou-se pela mulher.
- Será uma sereia? - perguntaram em corto as criadas ao rei.
- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito tortas, uma mais curta do que a outra. - respondeu o rei às criadas.
E o rei convidou a mulher para jantar.
Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à mulher quando as criadas se foram embora:
- Eu amo-te.
Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:
- Eu amo-te.
Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no tapete de Arraiolos da casa de jantar.

 

Uma história de bailarinas

Durante um espectáculo de beneficência
uma das bailarinas que fazia de cisne escorregou
as colegas mantiveram-se em silêncio
foram os arrumadores de pianos de cauda e de harpas
que removeram a bailarina do palco
para os bastidores
o público não disse nada
mas houve quem aproveitasse
para tossir e para abrir e fechar as malas
e para comer rebuçados e para assoar o nariz
a bailarina foi facilmente substituída por outra
durante um ou dois meses não pôde andar
porque lhe doíam os pés
depois já não lhe doíam os pés
mas continuou sem andar
não sei andar
dizia baixinho quando alguém
a mandava passear a pé
só tenho sapatos feios
muito fora de moda
peço desculpa
agora não posso
estou a copiar um conto de Andersen
qual? acho que é "O soldadinho de chumbo"
acha? mas há quanto tempo é que anda
a fazer essa cópia?
não me apetece acabar
com quem é que está a falar a Bidinha?
não está aqui ninguém
a Dona Alice manda-lhe esta cesta de figos secos
e a bailarina começou a comer os figos secos
um por um

 

A princesa de braços cruzados

- Não quero trabalhar, nem estudar, o que eu quero é namorar. - disse a princesa e cruzou os braços.
Dormia de braços cruzados e tinham de lhe dar comer porque a princesa só abria os braços para abraçar o namorado e não havia nenhum namorado para ela.
Quando se acabou o dinheiro, acabaram-se as criadas e acabou-se a comida. A princesa morreu de fome, muito suja, mas sempre de braços cruzados.
E nem os cangalheiros nem os médicos legistas lhe conseguiram descruzar os braços porque nem os cangalheiros nem os médicos legistas eram o namorado da princesa de braços cruzados porque não havia nenhum namorado para ela.
Foi conservada em formol dentro de um frasco de vidro transparente para ser mostrada aos visitantes do Museu de História Natural. N aplaca que dá informações sobre o conteúdo do frasco está escrito em latim: " só descruzará os braços quando lhe aparecer um namorado ". Todos no Museu têm a esperança de que um dia um visitante saiba latim e seja o namorado da princesa de braços cruzados.
Mas a empregada do balcão do Museu, menos positivista do que o resto do pessoal, resolveu fazer o mesmo que a princesa dos braços cruzados. Por isso não há bicas para ninguém.

 

O regresso de Chamilly

Marianna
ficou sozinha
no convento de Beja
porque as outras freiras
casaram-se todas
ou morreram
menos ela

batem à porta
do convento
Marianna pensa
as testemunhas de Jeová
ou a publicidade
mas não
É Chamilly
 

*


Em 81 disse à Dr.ª Manuela Brazette, psiquiatra, "Eu sou feia". Ela disse-me " Não é ser feia. Não há pessoas feias. Não tem é atractivos sexuais". Lembrei-me então do homem que em 74, tinha eu 14 anos, se cruzou comigo no Arco do Cego. Lembrei-me muito bem do que ele me tinha dito ao passar por mim. Tinha-me dito " Lambia-te esse peitinho todo". Lembrei-me também da meia dúzia de outros homens que durante a minha adolescência me tinha dito quando eu passava " Coisinha boa" e "Borrachinho". Ainda hoje me sinto profundamente agradecida a esses homens. Pensei que eles estavam a avacalhar, que eram uns porcalhões. Mas quem estava a avacalhar era a Dr.ª Manuela Brazette, ela é que é uma porcalhona. Acho que um homem nunca consegue ser mau para uma mulher como outra mulher.

 

Body art?

Com os remédios
engordo 30 Kg
o carteiro pergunta-me
para quando
é o menino
nos transportes públicos
as pessoas levantam-se
para me dar o lugar
sento-me sempre

Emagreço 21 Kg
as colegas
da Faculdade de Letras
perguntam-me
se é menino
ou menina

No metro
um rapaz
e um velho
discutem
se eu estou grávida
o rapaz quer-me
dar o lugar

Detesto
o sofrimento

 

Menstruação

Penso fazer uma antologia de textos sobre a menstruação. Nesse livro a fazer-se vai estar a página d' O Conquistador de Almeida Faria, sobre Clara, uma rapariga que pendurava os pensos higiénicos usados numa cerejeira carregada de cerejas. Parece um quadro de Frida Kahlo. Parece uma árvore de Natal. É tão bonito! Pessoa queixa-se de que pouca gente vê a beleza do binómio de Newton. Eu queixo-me de que pouca gente, tanto homens como mulheres, vê a beleza da menstruação. A menstruação é tão bonita como o binómio de Newton, o que há é pouca gente para dar por isso.

Para mim é sempre uma alegria muito grande a chegada da menstruação. A menarca aconteceu-me a 19 de agosto de 1972. Lembro-me perfeitamente de ter entornado um jarro de água quente sem querer e ter caído da bicicleta, quase atropelando um homem que me disse isso mesmo "Parece que me queres atropelar!". Depois fui à casa de banho urinar e vi que tinha sangue nas cuecas. Felicíssima dei a notícia à casa. A minha avó Zé e a minha tia Paulina deram-me os parabéns. Disseram "Agora já é uma senhora". A Maria Arminda, a criada, disse "Parabéns por quê? É uma porcaria". A Maria Arminda chamava à menstruação "o pingo". E à vagina "a grila".

Penso que é uma pena muito grande haver mulheres ( e homens) que têm nojo da menstruação. A publicidade fala d' "os dias difíceis"! São dias maravilhosos. Eu agradeço sempre a Deus as minhas regras de cada vez que elas voltam. Como geralmente no período pré-menstrual me sinto muito deprimida, a chegada da menstruação é o fim da depressão, a libertação. E depois, se acho que vou ter relações, o primeiro dia de regras é o dia de começar a tomar a Diane 35, a minha pílula. O que também é uma coisa boa.

A minha tia Vitória, mulher do historiador Oliveira Martins, nunca foi menstruada. Era uma história de mulheres que se contava em minha casa entre as mulheres. Eu, antes de me aparecer a menarca, tinha medo de ser como a tia Vitória. Cada vida é diferente e maravilhosa. E não quero que as mulheres que nunca são menstruadas se achem infelizes. Outra página lindíssima é o poema de Herberto Helder "A menstruação, quando na cidade passava" ( in A máquina lírica ). Acaba assim : " e pela noite, em silêncio,// a menstruação escorria pela neve." Neste poema aparecem cravos e figos. Uma mulher que nunca experimentou a menstruação ao ler este poema não morre como as Ximenas do Jorge de Sena que "para imaginar faltou-lhes tudo".

É horrível pensar que tudo se passou e ainda se passa, às escondidas, com medos, com vergonhas, em sacristias nada sacras. Eu, embora gostasse muito de estar menstruada, tinha medo que os outros soubessem que eu estava menstruada. A minha mãe ainda era do tempo dos paninhos. A Maria Arminda dizia que o lavadeiro quando lavava os panos gritava "Aquelas porcas! Aquelas porcas!" É pena que o lavadeiro não tenha lido outra página da minha antologia pessoal, a de Valéry, de "Diário de Emma, sobrinha do Sr. Teste" ( in La jeune parque ). Aí se diz que tudo o que sai do corpo é puro, produto elaborado de uma indústria bioquímica muito complexa.

Ouvi a minha mãe dizer ao meu pai que eu tinha mudado de idade. O meu pai, como quase todos os homens da sua geração, que tanto vêm de republicanos como de fascistas, despreza as mulheres. Não me disse nada. Gostava de ter sido filha do escritor António Lobo Antunes que numa crónica neste jornal ( outra página antológica ) contava que quando a filha tinha mudado de idade lhe tinha dado um ramo de flores.

Parece que as páginas de Anne Frank sobre os tampões ou pensos higiénicos têm sido censuradas. E devia ter sido complicado estar menstruada à sombra dos nazis. Mas nazis são também os que censuraram os tampões de Anne Frank. Isso é completamente ridículo, mas eu achava que se o gonçalvismo triunfasse, deixavam de se vender tampões em Portugal. Armazenei tampões durante o Verão quente de 75. Penso que devo registar isto para as História de Portugal. Com o uso de tampões aprendi mais sobre a minha anatomia até porque aprendi a masturbar-me com prazer.

 

Poema 2

A falta
de um abraço
faz de mim
um palhaço
quando o poema
está
em vez
da foda
incomoda
torna-se coisa
de circo

 

La femme de trente ans

Amarás
o meu nariz
brilhante
as minhas estrias
os meus pontos pretos
os meus textos
os meus achaques
e as minhas manias
e as minhas gatas
de solteirona
ou não me amarás

 

Ficha técnica
Espectáculo apresentado a 11, 12 e 13 de Abril de 2002 (Espaço XM)

Encenação: trabalho colectivo
Intérpretes: Ana Madureira, Cátia Faísco e João Vaz
Ana Monteiro e Rita Miranda (criadas)
Música e efeitos sonoros: Bruno Matias
Luminotecnia: Vasco Pinto
Montagem de vídeo: sal.
Adereços: Isabel Faísco, Madalena Bento e Sandra Ribeiro
Fotografias: Francisca Moreira e Jorge Nande
Cartazes e bilhetes: Vasco Pinto