a pequena bonnie
levemente inspirado no livro "o amante equivocado" de Miranda Lee
(Verónica sentada na poltrona c/ revista. Tina entra com Bonnie)
Tina - Aqui estamos querida. É aqui que o teu pai trabalha. Segundo a secretária, ele estará em reunião toda a tarde e não tem tempo para mais nada. Isso é muito mau, não achas? Sobretudo, porque vai ver-nos hoje, quer queira, quer não!Voz off:
Narrador - Tina rumou determinada para a porta giratória esperando ser mais bem sucedida do que fora antes nas portas do comboio.(risos) Entrou no átrio semicircular com o seu impecável piso de granito preto e dirigiu-se a passos largos para o elevador.(pausa)
Narrador - Doménico Hunter teria uma segunda oportunidade para admitir ser pai daquela menina maravilhosa, mas, se não cumprisse a sua parte teria de pagar, e PAGARIA CARO! Nos dias actuais, com os modernos testes de ADN, a simples negação de paternidade não significava nada.
Tina - Vamos deixá-lo tentar, meu anjinho (para Bonnie) e se o poderoso Sr. Hunter negar, vai arrepender-se do dia em que nasceu. (Tina sai)
(Início do genérico)
Doménico (voz off) - Mulheres!!! (pausa) Bolas! Estas Mulheres!
Em cena:
Narrador - Doménico sabia sempre lidar com as situações complicadas dos negócios. Era o sexo oposto que o irritava, levando-o quase à loucura. Não desejava nada daquilo para si. Amor, casamento... e muito menos bebés. O último item incomodava-o mais do que os anteriores, pois durante a universidade, quando tinha pouco mais de vinte anos, uma namorada tentou atraí-lo para o matrimónio com o pretexto de uma falsa gravidez. Doménico NUNCA SE APAIXONARA POR NINGUÉM EM TODA A SUA VIDA.
Narrador - A sua mãe, viúva, estava a deixá-lo louco com o único objectivo de se tornar avó e passara a convidá-lo sempre para jantares repletos de mulheres disponíveis. Todas eram bonitas, muito sexys... e queriam ou fingiam querer a mesma coisa que Verónica: CASAMENTO E BEBÉS. Ela acabara de telefonar para se assegurar de que Doménico não se atrasaria para o jantar daquela noite, porque tinha convidado Joana Parsons.
(Verónica continua sentada na poltrona)
Verónica - A pobrezinha tem estado tão solitária desde que Damien...
Narrador - SOLITÁRIA??!! A Joana Parsons, SANTO DEUS!!! A MULHER É UMA NINFOMANÍACA!!! Mesmo antes da morte de Damien, que ocorrera num acidente de automóvel, há alguns meses atrás, Joana tentara de todas as maneiras seduzir Doménico. E agora, como recém viúva, não havia nenhum impedimento entre os dois... Doménico gostava de sexo, evidentemente, mas preferia praticá-lo com mulheres que se identificassem com a sua maneira de encarar a vida.
(intercomunicador: "Estão à sua espera na sala de reuniões, Sr. Hunter")
Narrador - Aquela era uma das coisas que Doménico gostava em Dóris, a sua nova secretária, que lhe chamava Sr. Hunter e não Doménico. Além de respeitoso, o tratamento fazia com que se sentisse com mais idade do que os seus 33 anos. O facto de se chamar Dóris animava-o também por rimar com clitóris.
Doménico (voz off) - Sim, sim estou a caminho. E não me passe mais chamadas, Dóris, CLÍTORIS, por favor, não quero nenhuma interrupção, temos muito que fazer hoje à tarde.
Narrador - Tina saiu do elevador e perguntou-se com amargor, se a loira OPULENTA que se sentava à mesa fora escolhida pelo próprio Doménico Hunter.
Tina - Talvez ele tivesse preferência por loiras...
Narrador (para Tina) - Claro que Dóris não era uma loira qualquer. Os seus longos cabelos doirados eram gloriosos, harmonizando-se com a perfeição do rosto. A sua aparência estonteante, aliás, fora um problema durante toda a sua vida, não lhe trazendo nenhuma felicidade. Os homens não conseguiam mantê-la longe dos olhos... ou das mãos. (risos + saída)
(Tina entra e senta-se na ponta da poltrona de Verónica)
Tina - Sra. Hunter!!!
Verónica - Sou eu, querida! Como posso ajudá-la? (pausa) Que lindo bebé!(inclina-se para ver Bonnie) Uma menina, presumo?
Tina - Sim.
Verónica - Posso pegar-lhe? Está acordada.(Pega-a ao colo) Como se chama?
Tina - Bonnie.
Verónica - E você?
Tina - O meu nome é Tina Highsmith.
Verónica - Então o que está a vender a Tina?
Tina - Na verdade, Sra. Hunter, não estou a vender nada. Estou aqui na realidade para lhe falar sobre o seu filho Doménico...
Verónica - Doménico? A sério? E vem falar sobre o quê?
Tina - Sobre Bonnie! (pausa) Ela é filha dele... ELA É FILHA DELE!
Verónica - O Doménico sabe disso?
Tina - Tentei explicar-lhe isso, mas o seu filho mandou o segurança expulsar-nos do prédio.
Verónica - Ele o quê?
(Tina 2 surge da poltrona. Desliza para o sofá agarrando as mãos de Verónica)
Tina 2 - A culpa foi minha, Sra. Hunter!! Compreendo isso agora, quando disse que Bonnie era filha dele, esqueci-me de referir que eu não era a mãe... O seu filho pensou que era uma vigarista a querer aplicar-lhe um golpe.
Verónica - Mas se não é a mãe, quem é ela??
Tina 2 - A minha melhor amiga.
Voz off:
Narrador - Tina pigarreou, sentindo a sua garganta a arranhar. Aquilo sempre acontecia quando pensava na morte de Sara.Tina 2 - Ela trabalhou na Hunter&Associados no ano passado. Era secretária de Doménico, mas Sara foi atropelada por um autocarro no mês passado. (Tira bolachas da carteira e come-as. Fala de boca cheia) E eventualmente morreu. Antes de falecer, nomeou-me tutora legal de Bonnie.
Narrador - Antes de falecer Sara nomeou Tina como tutora legal de Bonnie. A certidão de nascimento da menina, na verdade, diz pai desconhecido, mas na verdade, ela sabe sem sombra de dúvidas, não pensa que a rapariga poderá ser outra coisa que não a sua NETA!
Tina 2 - A certidão de nascimento da menina, na verdade, diz pai desconhecido, mas na verdade, eu sei sem sombra de dúvidas, não penso que a rapariga poderá ser outra coisa que não a sua NETA!
Verónica - Tem a certeza???
Tina 2 - A-B-S-O-L-U-T-A. Sabe que a nossa relação se baseava na confiança mútua e recíproca. Sara e eu éramos confiantes, quer dizer, confidentes. O seu filho é mesmo o pai de Bonnie, Sra. Hunter. Mesmo, mesmo!! Sim, sim... Essa é que é essa...Oh pois...Oh larila...Um teste de ADN poderá tirar as dúvidas, apurar a verdade, pôr os pontos nos is, tirar a prova dos nove... Sabe o que é um teste de ADN, Sra. Hunter?? Não é uma ortopantomografia, não é um TAC, nem uma radiografia, A-D-N. Sara foi ver Doménico quando descobriu que estava grávida. E mesmo recusando-se a acreditar que o filho era dele ainda lhe deu dinheiro para outra "solução".
Verónica - Mas ela não...
Tina 2 - Não! (aponta para Bonnie) Sara não concordou em fazer um aborto.
Verónica - Graças a Deus!!!
(Verónica abraça Tina)
Verónica - Sempre quis ter uma neta. Nem imagina quanto...(pausa) Doménico era tão teimoso quanto a não querer saber de casamentos ou de filhos...(breve pausa. ar pensativo.) Disse-me que era a tutora legal da menina. Porquê Tina? Sei que eram quase irmãs mas quanto aos pais , tios, avós, irmãos mesmo da sua amiga???
Tina 2 - A mãe de Sara morreu num incêndio quando ela tinha apenas 9 anos. A minha amiga nunca conheceu os pais ou os avós, na verdade, a mãe dela era um género de ovelha negra na família, se é que me entende. Metia-se na vida, tá a ver? Não era casada quando teve Sara. Acho que o pai a abandonou antes que o bebé nascesse. Por isso não há outros parentes interessados em Bonnie.
Verónica - Entendo... E quanto a si, querida, é casada?
Tina 2 - Não, não sou.
Verónica - Certo, desse modo, pretende criar a pequena Bonnie sozinha.
Tina 2 - Farei isso, se for preciso, Sra. Hunter... Mas seria muito difícil, visto que eu mesma (pausa) não tenho família... a minha mãe faleceu no mesmo incêndio que a mãe de Sara. Também era solteira.
Narrador - Isso para não mencionar que também era uma mulher da vida. Aliás, ambas as mulheres o tinham sido... Mas Tina preferiu não tocar naquele momento naquele assunto... nesse assunto naquele momento nesse assunto naquele assunto nesse...
Tina 2 - Sara e eu passámos a nossa infância em instituições do estado. Isso quando não estávamos em algum período de testes num lar adoptivo...
Verónica - Santo Deus...pobrezinhas!!!
Tina 2 - Nós sobrevivemos, Sra. Hunter (dando-lhe pancadinhas nas costas). Agora pode compreender como é que ficámos tão íntimas... Sara confiou-me o cuidado de Bonnie e não tenho intenção de permitir que a bebé termine como nós. (Tina levanta-se e caminha p/a o meio do palco, em pose shakespeariana) Sem dinheiro e sem nenhum adulto para a amar...(Agradece ao público: palmas gravadas. Entra Tina 1)
Verónica (ao encontro de Tina) - Não terá de se preocupar com isso, meu anjo!! Cá estarei para a amparar. E o Doménico fará também a sua parte... se não vou ter que lhe puxar as orelhas e dar duas palmadas, sovando-o de tal forma que ele comece a aperceber-se do que é real... Este rapaz não tem tino, mas tem Tina!!! Mas agora, o melhor é ficar para jantar, querida. E contar-me tudo ao pormenor até o meu filho chegar para discutirmos todos e no fundo debater os assuntos fundamentais da vida quotidiana e questões da actualidade, um género de uma tertúlia, está a ver??
Tina - O seu filho vive aqui??
Verónica - Atina, Tina!! Bem, acho que a resposta à sua pergunta é, Oh céus!!! Sim, sim... Ele não é um rapazote mimado, se é isso que está a pensar. Se bem que de vez em quando ainda pede que lhe coce as costas, mas é mesmo assim, está a ver?? Isto é, a decisão de viver comigo foi baseada no seu infalível lado prático...
Tina - Eu tenho é a ligeira impressão de que ele não dará pulos de alegria por me ver... Talvez fosse oportuno...
Verónica - Diga, Tina...
Tina - Avisá-lo?
(Narradores repetem: "Avisá-lo?". Doménico é o último: "Avisar-me?")
Tina - Pois sim... Doménico não merece nenhum aviso.
Verónica - Além disso, à Sexta nunca é bom dia para lhe ligar... Eu mesma já tentei e não recebi um tratamento muito cordial... O que me faz lembrar de outra coisa... é melhor telefonar à Joana a cancelar o convite de jantar.
Tina - Não por minha causa, espero...
(Verónica sai. Tina fica de costas)
Em cena:
Narradores
(a) Tina pensava em quem poderia ser a tal Joana. Seria uma amiga da Sra. Hunter ou mesmo de Doménico. Era dele com certeza e, uma putéfia qualquer de certo... Os lábios da Sra. Hunter curvaram-se num sorriso enigmático qual Gioconda desta feita com sobrancelhas. (b) Tina não pode deixar de constatar que a senhorita Hunter era mesma alma boa e gentil, (a) doce e meiga, (Gonçalo) simples e terna, (a)capaz e afaz, (b) sim , era-o sem dúvida, mas também deixava transparecer uma aura de energia e decisão, (a) de sensibilidade e bom senso, (b) de arguto bom tacto e (a)de sensato pragmatismo. (b) Como é que uma senhora tão amorosa pudera gerar um filho como Doménico Hunter? Doménico Hunter...(a) Doménico considerou a ideia de chegar atrasado a casa, pensou até mesmo em ligar para a mãe inventando um jantar, mas como nunca fora nem covarde nem mesmo um pulha sem escrúpulos, nem tão pouco um salafardanas peçonhento, entrou no seu carro um pouco antes das 6, para aí 6-5, no máximo 6-10, nunca antes e dirigiu-se para casa. (b) Sim, sim, ele iria suportar a mãe. Além disso as louras também não eram do seu tipo. Uma morena alta e magra, isso sim, com longas pernas e um rico decote deixá-lo-ia realmente interessado no mesmo instante. Digo mais, se fosse um desafio, a combinação seria irresistível. (a) Infelizmente, Joana Parsons não era nada disto. Os seus cabelos eram lindos longos lânguidos, negros e um tanto selvagens, bem como a sua dona, era pena que fosse vigarista, ou maluca...??!!
(saída dos narradores. Ouve-se o choro de Bonnie: gravação)
Doménico (entra de rompante) - É lógico que não, nãoooooooo... ela não ousaria?!?!
Voz off:
Narrador - Mas quando a criança voltou a chorar Doménico soube que ela ousaria sim, isso e muito mais, era esperar para ver... (Doménico chega-se a ela por trás, irritado) As suas calças brancas e justas realçavam todos os contornos das suas coxas esculturais e por um instante aquela visão quase o fez esquecer-se de como estava irritado. Aquilo durou porém apenas um momento.Doménico - Hei, você aí!!!!!!
Tina - (com o indicador nos lábios) Mais baixo, (a sussurrar) há horas que estou a tentar adormecê-la!!!
Doménico - Um dia minha querida e jovem tenra chavala, farei com que me olhes de outra maneira!!! Vais dar-me fogo, não gelo, é só aguardar.
Narrador - A verdade é que Tina não gostava de homens grandes, chegava mesmo a sentir-se nervosa e intimidada como quando era pequenina e vulnerável. Isto era uma tolice visto que era bastante alta. Doménico era portanto mais alto do que a maioria dos rapazes com quem andava, um verdadeiro gigante naquele paradeiro. Media aí uns 2 metros bem medidos, e devia pesar uns 90 quilos sem no entanto confundir a sua aparência semidivina com o seu físico espartano.
Narrador - Graças ao passado familiar, tina tinha uma justificação para a sua atitude negativa em relação aos homens. Não é que fosse virgem, dormira com alguns namorados, mas nunca por amor. Era como se quisesse saber como actuar em cenas de sexo, no fundo também por ter ficado curiosa por todo o burburinho que se fazia a esse respeito, e ainda não fazia a menor ideia da razão para tanto estardalhaço.
(Tina entra a par de Doménico. Sentam-se no carro)
Doménico - Olha lá, tu e a Sara... Como é que vocês se conheceram?
Tina - O que é que isso te interessa?
Doménico - Nada...Mas já que vamos andar de carro uma boa meia hora, ao menos podíamos falar um bocado.
Tina - Está bem. Conhecemo-nos desde pequenitas. A minha mãe e a dela morreram no mesmo incêndio. Ninguém quis saber de nós e fomos parar a um orfanato. Não tínhamos ninguém para assinar a papelada caso alguém nos quisesse adoptar e acabámos a estudar e a trabalhar. Ela acabou secretária e eu acabei actriz. A tua mãe não te contou?
Doménico - Não.
Tina - Andei 2 anos a espreitar pela luneta para ver como é que os outros actores faziam. No fundo acabei por perceber que é como tirar leite a uma vaca. Vês alguém que sabe fazer e achas que é fácil, chegas perto e apertas a teta e a vaca não pinga nada.
Doménico - Isso é muito profundo.
Tina - Eu sei. (pausa) Ainda não te fartaste de fingir que vais a conduzir?
Doménico - Já. Mas ainda nos faltam deixas.
Tina - O que é que falta dizer?
Doménico - Que não tens dinheiro nem emprego, que eu sou muito rico e que a minha mãe pode dar muito amor à Bonnie...
Tina - ...e que eu acho que tu és de certeza o pai de Bonnie e que tu achas que é melhor esperar pelos testes de ADN.
Doménico - Mais alguma coisa?
Tina - Enquanto me tento lembrar, vamo-nos pondo a jeito...
(deita-se, insinuando-se para a sedução)
Doménico - Espera!
Tina - Diz.
(Sai Tina e entra Tina 2)
Doménico - (retomando o Doménico do livro)... se tinha tanta certeza de que eu era o pai de Bonnie porque é que não veio procurar antes, quando a Sara lhe disse que eu lhe tinha dito que não era o pai de Bonnie e que lhe tinha dado dinheiro para abortar?
Tina 2 - (surpreendida) Ahhh..., eu não estava cá, lembra-se?
Doménico - Mas voltou quando a Sara pariu a Bonnie...?
Tina 2 - (voz sumida) Na verdade... não, não voltei... (pausa) Berrámos com fartura e ela disse que nunca mais me queria ver...
Doménico - Sobre o que é que berraram? (Tina não fala e abana a cabeça. Doménico tira o lenço do bolso e dá-o à Tina que chora) Sente-se melhor agora?
Tina 2 - Nem por isso...
Doménico - Porque é que discutiram?
Tina 2 - Se quer mesmo saber, discutimos por sua causa.
Doménico - (incrédulo) O quê?! Por minha causa???
Tina 2 - Nunca mais vou chorar à sua frente, seu miserável insensível!
(Os dois levantam-se e sacam do lençol e das malas: casa de Sara)
Doménico - Então esta é a casa de Sara...Tem dormido aqui?
Tina 2 - Sim. Onde mais poderia ficar? As minhas malas estão encostadas à parede. Não as desfiz porque não pensei ficar muito tempo.
Doménico - Pegue lá em tudo o que precisa para sairmos daqui. Acredite em mim quando lhe digo que se a Sara me tivesse contado que estava grávida, ela e a bebé não teriam de viver assim.
Tina 2 - Desculpe ter-lhe chamado mentiroso e crápula e mariconço e insensível...
Doménico - Já chega!
Tina 2 - Eu... lamento muito ter dito isso e que abandonou a Sara.
Doménico - Pelo que vejo a Sara não podia ter arranjado melhor amiga e melhor mãe para a pequena Bonnie.
Tina 2 - Ohhh! (atira-se para a cama)
Doménico - (suavemente) Promete-me que nunca mais vais chorar à minha frente.
Tina 2 - Não posso evitar... (chora convulsivamente)
(Doménico aproxima-se de Tina e quando se senta, ela cai-lhe em cima)
Tina 2 - (destapando a cara e piscando o olho) Ora!
Doménico - (abraçando-a) Está tudo bem! (inclina-se para a beijar)
Projecção de slides:
Tina - Não! Não ouses aproximar-te de mim OU TOCAR-ME!Doménico - Tina, por amor de Deus! Sê justa. Também me querias, sabes que sim.
Tina - Não, eu não queria, nem quero agora, porque és o último homem com quem gostaria de fazer amor. Odeio-te Doménico Hunter e... desprezo-te.
Doménico - Porquê? Pensei que tivesses acreditado em mim...
Tina - (furiosa) Gozaste, usaste e abusaste da Sara. Não a amavas mas fizeste amor com ela mesmo assim. És uma máquina sexual sem sentimentos, é isso que és. Quando uma mulher está desprotegida de corpo e alma, atacas como um predador! És um desalmado Doménico Hunter! (Fim da gravação)
Doménico (monólogo) - Não, tens de me ouvir! Já fizeste o teu discurso, agora deixa-me fazer o meu. Eu não queria que isto acontecesse. Nem planeei nada. Eu estava tão nervoso contigo como tu estás comigo. Eu não fiz nada daquilo de que me acusas. Mas a verdade é que me sinto atraído por ti desde que entraste hoje no meu escritório.
(durante o monólogo de Doménico, Tina 2 começa a aproximar-se por trás pondo-lhe as mãos no corpo. Saem de mão dada)
(entram Tina e Doménico, a fumar)
Tina - Fico feliz em saber que usas sempre preservativos.
Doménico - Estás a tomar a pílula, presumo...
Tina - Sim. Ao contrário da pobre Sara, que Deus a tenha.
Doménico - Sara, oh, não fales da Sara agora. Nós precisamos mesmo de conversar!
Tina - Não! Não precisamos! Falar sobre o quê? Que fizemos sexo? Grande Merda...Tu querias, eu queria, nós queríamos, o narrador queria, a tua mãe queria e até a pequena Bonnie queria. Resolvemos fazer e fim da história.
Em cena:
Narrador (b) - Doménico ficou chocado. Como é que Tina ousava reduzir de tal modo aquilo que tinham experimentado? Nada além de sexo? Podia não ter sido amor, MAS FORA MAIS DO QUE ANIMAIS A ACASALAREM.
Narrador (a) - Quando Doménico ouviu o barulho do chuveiro, algo feriu o seu ego. Era como se Tina não pudesse esperar para o lavar do próprio corpo. Mas Doménico não era um canalha sem sentimentos.Tina (p/a o público) - Quanta petulância, arrogância e falta de sensibilidade. Homens como ele pensam que as mulheres são meros objectos sexuais para brincar. A próxima coisa que ele me vai dizer é que ainda acredita no Pai Natal.
Narrador (b) - Ele não usou preservativo...
Narrador (a) - Ela não tomou a pílula...
Narrador (b) - Queria que Doménico pensasse que era sexualmente activa.
MENTIRA!
Narrador (a) - Há anos que Tina não estava com um homem.
Doménico - Sabes, Tina, eu jamais negaria ser o pai da Bonnie, se imaginasse que fosse. Precisas de acreditar nisso. (pausa) Acho que sei quem é o pai.
Tina - Sabes?
Doménico - Sim. Sei também que achas que o que aconteceu aqui hoje prova que sou um irresponsável, mas juro-te, Tina: esta foi a primeira vez em doze anos que me esqueci de usar preservativos.
*
Verónica - Oh, és tu, querido...Doménico - Sim, mãe, o seu filho adorado!
Verónica - Onde está Tina? Por acaso foste incomodá-la ao seu quarto?
Doménico - Lógico, afinal, sou Doménico, o Inconveniente, não é? Isso, sem mencionar os rótulos de Sedutor Implacável e canalha que abandona mulheres grávidas. Tina está lá em cima.
Verónica - Discutiram de novo...
Doménico - Pode-se dizer que sim. (pausa) Mãe tenho algo para lhe confessar.
Verónica - Niiiiiico,(afagando-lhe o cabelo). Já sei que és o pai de Bonnie...
Doménico - Não, ... Não sou eu (gaguejando). O verdadeiro pai é Damien Parsons.
Verónica - Niiiiiiico, meu filho... (puxão de orelhas) colocar a culpa num homem morto é uma coisa muito feia.
Doménico - Mas ela nem se parece comigo!
Verónica (vai saindo)- Parece, parece... e quanto à Tina, a Tina é uma moça adorável e generosa.
Doménico - Mãe! Por amor de Deus! Será que não está a ouvir?
Voz off:
Narrador - Doménico estava com a sua auto-estima em frangalhos. Não se conseguia olhar ao espelho. Tina mudara, fechara-se como uma concha. Doménico não conseguia imaginar que aquilo tinha sido só sexo. Em duas semanas Tina, a bela mulher, estaria fora do seu caminho, e para sempre. Bastaria que o resultado do teste chegasse e nunca mais voltariam ver-se. NUNCA MAIS! A não ser que...Tina 2 - Eu tenho de falar contigo.(a ensaiar) Vim pedir desculpas. Estava muito errada sobre ti, Doménico. Posso ver isso agora. Verónica contou-me sobre Damien Parsons que ele é,... ou era. Um malandro, objecto do amor de Sarah. Tu não és o tipo dela. Mas... descobri a verdade quando percebi que o nome dele começava com D!
Doménico - Com D? (Aparece o D projectado tipo néon?)
Tina 2 - Encontrei estes bilhetes todos assinados com a letra D.
Doménico - Que logo imaginaste ser de Doménico.
Tina 2 - Sim. Que logo imaginei ser de Doménico...(ajoelha-se, agarra-se às suas pernas e chora convulsivamente). Eu lamento tanto, Doménico! Acabei por tirar conclusões equivocadas e recusei-me a ouvir o que dizias. Acertaste em cheio quando me chamaste preconceituosa. Eu era e aceito agora que não és o pai de Bonnie. Damien Parsons, SIM! Damien Parsons, SIM! Não quero magoar mais ninguém muito menos a viúva de Damien e família.
Doménico - Eu não te odeio!
Tina 2 - Não?
Doménico - E mais uma coisa, a mais importante: eu sou o verdadeiro pai de Bonnie porque Damien... (pausa) Damien fez uma vasectomia alguns anos antes, logo não pode conceber esta criança!
Narrador - Doménico era o pai de Bonnie e tudo ia dar certo.
Doménico - Não sou um homem que tem medo de assumir as responsabilidades, além disso tenho duas boas mulheres para me ajudarem a criar a minha pequena. Que mais um homem pode querer?
(Tina 2 simula beijo. Doménico sai. Verónica entra)
Verónica - Já conversou com Doménico? Como foram as coisas?
Tina 2 - (a passar a língua pelo lábios) Sim! Sim! E desta vez foi uma conversa de verdade! O seu filho é... Ah! Perdoe-me Verónica, ainda estou emocionada...
Verónica - Conte-me tudo Tina! Não me esconda nada!
Tina 2 - Doménico admitiu ser pai de Bonnie!
Verónica - Eu sempre soube! Basta fitar de relance a pequena Bonnie para ver que ela é filha do meu Nico! Ela tem os genes dos Hunter estampados na testa. Tina, sabia que a mosca varejeira tem tantos genes como o meu Doménico?
Narrador - Tina não sabia. Mas não achava Bonnie nada parecida com Doménico, nem por sombras, muito menos com a mosca varejeira. A jovem nem sabia o que era um gene. E isto incomodou-a. Já não conseguia ouvir Verónica.
Verónica - Bla, bla, bla....O motivo é que Doménico trata o sexo como se estivesse a marcar visitas ao dentista... Só pode acontecer depois do horário do expediente, ou durante o almoço. Sim, pode parecer chocada, mas já vi a factura do cartão de crédito dele. O que mais poderia explicar as contas em quartos de hotel na cidade, quando sei muito bem que Doménico vem para casa todas as noites e trabalha no escritório o dia inteiro?
Narrador - Os olhos de Tina estavam arregalados e o seu coração acelerado. Se o que a mãe de Doménico estava a dizer era verdade então ele nem sequer teria de sair para ter sexo! Tina recusava-se a chamar àquilo que sentia amor.
Verónica - Amor, vá-se deitar um pouco e durma.(Piscando o olho) É que me parece cansadissíma...
Tina 2 - E estou, Verónica.
*Doménico - Não me digas que não gostas de mostrar esse corpinho perfeito?!
Tina 2 - Gostas das minhas formas, Doménico?
Doménico - ADORO!!! Os teus seios são lindos e a tua cintura, adorável. E essas pernas longas... Adoro tudo em ti, mulher! Pensei que soubesses disso.
Tina 2 - Quero ver-te nu também Doménico! (pausa) Tu... Fazes muita ginástica?
Doménico - Só um pouco. Ajuda a aliviar o stress. Há uma academia instalada no edifício da empresa. É bem conveniente.
Tina 2 - E quanto ao teu bronzeado?
Doménico - É artificial. (risos)
Tina 2 - O que há de tão engraçado Doménico?
Doménico - Eu não costumo gostar de falar quando estou na cama com uma mulher.
Tina 2 - Oh!...Doménico - Mas aprecio muito conversar contigo, querida. Gosto tanto que poderia conversar e tocar cada centímetro teu toda a noite. Gostas disto meu anjo? Não precisas de fazer nada Tina. Apenas fica deitada, fechas os olhos e delicia-te...
Narrador (Afonso) - Assim passaram as horas seguintes. Doménico fez amor com ela várias vezes, surpreendendo Tina com a sua gentileza e vigor, mas mais com vigor do que gentileza. Algumas vezes conversaram, contando um ao outro as coisas mais tolas, conversa de amantes era o que supunha a nossa querida Tina.
(entra Tina e Verónica)
Verónica - Eu ainda não acredito nisso! Doménico convidou-a para sair e você aceitou! Veja bem, sempre soube que era o tipo dele, querida, mas nunca esperei... Nunca acreditei... isto é bom demais.
Tina - Não tenha muitas esperanças, Verónica. Doménico ainda é Doménico.
Verónica - Mas gosta dele, não é? Quero dizer... mesmo?
Tina - Sim. Gosto muito. (pausa) E então, como estou, Verónica?
Verónica - Linda! Uma princesa... Doménico vai ficar maluco! Espero que saiba o que está a fazer, minha cara.
Tina - O que quer dizer?
Verónica - Querida, o meu filho não é do tipo que se faz de cavalheiro com uma bela mulher por muito tempo, sobretudo quando a dama em questão se arranja assim para ele.
Tina - Verónica, tenho 26 anos. E já vivi bastante. Sei muito bem o que estou a fazer.
Verónica - Está bem... Mas, mesmo assim, tenha cuidado.
(sai uma para cada lado)
No jantar...
Em cena:
Narrador (a) - O jantar ia bem, mas... (pára a música)Narrador (b) - Um criado interrompe-o dizendo que Doménico tem uma chamada muito importante.
Narrador (a) - Uma emergência. Do outro lado do telefone Verónica, aflita, conta a Doménico que a pequena Bonnie foi levada para o hospital com dificuldades respiratórias.
(Narradores encostam-se a um canto. Tina e Doménico correm até a outra extremidade do palco. Médica e Verónica surgem e dirigem-se ao centro.)
Médico - São os pais?
Doménico - Esta é a tutora de Bonnie. A mãe dela morreu, mas eu sou o pai.
Verónica - E eu, a avó! Fui eu quem a trouxe.
Médico - Graças a Deus que a senhora fez isso. A menina tem um tipo novo de bronquite, que ataca muito rápido. Ela melhorou agora e já consegue respirar com mais facilidade, mas esta vai ser uma noite bastante longa. Enquanto isso, tentem não se preocupar. Ainda bem que a menina não é alérgica a penicilina. Não que isso mate o vírus, mas é o melhor antibiótico para qualquer infecção. E a pneumonia pode ser um problema nesses casos.
Doménico - Como sabem que Bonnie não é alérgica à penicilina?
Médico - Está na sua ficha. Alguém deve ter dado essa informação quando a menina entrou no hospital.
(olham todos para Verónica)
Verónica - Eu não disse que tinha a certeza. Apenas disse que o pai não era alérgico, assim como o resto da família.
Doménico - Mas o que é isso mãe?! E se eu não for o pai de Bonnie?
Tina - Mas Doménico, deves ser. Quem mais poderia?
Médico - Não se preocupem. Nenhum antibiótico foi administrado ainda. Vamos esperar pelos testes de sangue.
(sai o Médico)
Doménico - Eu apenas disse que não podemos ter a certeza absoluta. Não até que chegue o resultado.
Verónica - Mas podes Doménico, tenho uma novidade. Falei com a Joana, a mulher do Damien Parsons e ela começou a dizer o quanto gostaria de ter tido um filho mas que Damien não gostava de crianças e tinha feito uma daquelas operações... Uma vis... ves...
Doménico - Uma vasectomia!...
Verónica - Sim, isso mesmo. Entendes agora meu filho?
Tinas - (comovidas) A realidade atingiu-te em cheio, não foi? Agora sabes que aquela é a tua filha, deitada naquele quarto.
Narrador (a) - Depois de várias horas à espera, as boas notícias chegaram. Os pulmões da menina estavam melhores, a temperatura tinha baixado e ela estava acordada.
Narrador (b) Estava tão bem que até já se queixava de fome, a pequena.
Narrador (a) - E é então que no meio de todo o reboliço que surge uma proposta.
Doménico - Acho que devíamos casar-nos Tina. E creio que devemos tentar dar um irmão ou uma irmã à Bonnie brevemente. Percebo agora que perdi muita coisa. Quero acompanhar tudo desta vez, Tina, desde o começo, estar lá quando o meu bebé nascer, ajudar a escolher um nome. Fazer parte de cada detalhe, por mais simples que seja. E na outra, e na outra, e na outra...
Tinas - E quantas VEZES estás a pensar, meu amor?
Doménico - Não me digas que estás com medo?!
Tinas - Posso dizer alguma coisa sobre os teus planos?
Doménico - Que tal Sim?
Tinas - Estás a encurralar-me. Primeiro na cama e agora queres empurrar-me para um casamento e filhos.
Doménico - Isso quer dizer que concordas?
Tina 1 e 2 - Sim.
Ficha técnica
Espectáculo apresentado a 15, 16 e 17 de Novembro de 2001 (Teatro-Estúdio - CITAC)Encenação: trabalho colectivo
Intérpretes: Cátia Faísco (Tina 1), Ana Madureira (Tina 2), João Vaz (Doménico), Ana Monteiro (Verónica), Marco Vieira (Narrador 1), Gonçalo Antunes (Narrador 2 e Médico) e as vozes de Afonso Simões e sal.
Sonoplastia e Diapositivos: Carlo Ruas
Luminotecnia e adereços: Madalena Bento
Fotografias: Francisca Moreira e Sérgio Azenha
Cartazes: sal.