















sleeping
around Sleeping Around é o retrato derradeiro e cruel do vazio nas relações humanas modernas, demonstração feroz da carência sentimental urbana. Numa metrópole moderna, doze personagens substituem-se ciclicamente em palco, cada uma querendo amar a personagem que acaba de surgir e rejeitando aquela que já conhece. Cada uma tentando desesperadamente encontrar amor num mundo que só lhes oferece consumismo massificado.
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Cena Dois Kate - Não tinha a certeza se o ia encontrar aqui, foi um bocado à sorte que… (sobressaltando-se) Credo! Uma enguia. Murray - Fornecedores de repulsa. Assustou-te? Kate - Julguei que… Não. Murray - Óptimo. … Kate - Você conhece-me. Murray - Ai conheço? Kate - Eu estava na sua palestra hoje. Murray/Kate - Amo-me, Alimento-me. Kate - Tenho todos os seus livros. Terceira fila, ao cimo, à esquerda; estava sentada ao lado da rapariga com o lábio leporino. Ao pé dela, eu era desejável, uma escolha melhor. Está tudo aqui, no seu livro. Murray - Tudo bem. Eu lembro-me. Kate - Foi o que disse hoje, é tudo sobre consumo. O nosso desejo de consumir. De sermos catalogados. Murray - Eu não disse isso. Kate - Percebo exactamente o que quer dizer. Temos de ser o mais perto possível, o centro absoluto. Temos de existir dentro de alguém. Temos de ser consumidos por alguém. Duas metades, como você disse… Murray - Eu nunca… Kate - …fazem um completo. Eu percebo-o. A minha mãe…eu
era uma gémea…percebe, dentro dela. Havia duas de nós
dentro da minha mãe. E um dia a minha irmã simplesmente
caiu, plof, no chão do supermercado. Assim um ratito embriónico
nu. Cor-de-rosa como aqueles camarões que se cobre com maionese
para se conseguir engolir. Uma pessoa nunca pensa que mesmo digerida pode
não estar segura. Murray - É tarde. Tive uma noite enfadonha e, por muito lúdicas que sejam as tuas histórias pré-natais, vou ter de te pedir que te retires. Kate - Psicologia é a minha cadeira favorita. Murray - Fico tão feliz. (Kate faz aparecer um pacote familiar de Twixes.) Vai…O que é que estás a fazer? Kate - Exactamente o que disse. Estou a amar-me, estou a alimentar-me. Saúde. Murray - Saúde? Kate - À digestão. Devia estar a dar-me os parabéns.
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Cena Quatro Joel - Porque é que não te sentas? Lyndsey - Fui comprar leite. Joel - Pois. Coco Pops – Lyndsey - Pois. Joel - …são bons com leite. Lyndsey - Desculpa…Toma. (dando-lhe o leite) Não conseguia dormir. Foi mais para apanhar ar do que outra coisa qualquer… Joel (mostrando a caixa de Coco Pops) - Não consigo levantá-lo sem isto. Lyndsey - Tens um… Joel - Quatro quase cinco. … Lyndsey - Eu estou bem. Joel - De certeza? Lyndsey - Óptima. Joel - Só que não estavas propriamente… Lyndsey - Jogging…Tinha parado para descansar. Não gosto muito. De bombas de gasolina. Único sítio que nunca fecha. Vinte e quatro horas, 365 dias por semana. Joel - Vai ter de ser Coco Pops. Também, em geral já acabei a caixa quando ele se levanta. Ben. O nome dele é Ben. Lyndsey - É bonito. Joel - Tens algum? … Lyndsey - Acho que ele julgou que eu era um bocado doida. O rapaz na bomba de gasolina. Não se pode entrar. Na parte da loja. À noite. Eles fecham-nos lá dentro. É tudo temporizado. E eu queria um bocado de leite e ele não abria a porta. Eu tinha de apontar para o que queria e depois – Joel - Ele passa-a pela portinhola. Lyndsey - Ele passa-a pela portinhola. Só que eu passei-me um
bocado à porta. Tu viste. Lyndsey - Estavas a olhar para mim. Joel - Pois. Quer dizer…Só…Porque eu estava à espera e ele não podia atender até que…Tu estavas… Lyndsey - Sabes quando estás a empurrar e devias estar a puxar. Ele estava sempre a fazer-me gestos e depois vem uma voz cavernosa através do altifalante. “Afaste-se da porta. Esta instalação tem um alarme temporizado. Não inicie uma entrada”. Só que o que é esquisito é que ele não está mexer os lábios. Está a olhar para mim como um sábio e então, sabes, eu não estou bem acordada e é como o Deus da Bomba de Gasolina a falar lá do alto. E eu a pensar como é que ele faz aquilo? Projectar a voz dele assim? Só saí para vir buscar um pacote de leite e agora tenho o Deus da Bomba de Gasolina – (pausa longa) Sou doida. Eu apercebo-me do que estou a dizer…ia achar que era doida. Joel - A mim pareces-me bem. … Joel - Então a cama é grande demais… Lyndsey - Estou assustada… Joel - Não estejas… Então a cama é grande demais… Lyndsey - E o teu cérebro está sempre a correr e então eu pensei vou fazer jogging… Joel - É perigoso. Lyndsey - Às vezes é mais perigoso ficar dentro de casa… Joel - Nesta altura da noite. Tu podias…Foi sorte eu… Lyndsey - Ter-te conhecido…? Joel - Eu encontrei-te… Lyndsey - É aquela sensação quando acordas e estás tão sozinha e então distrais a mente. Pensas…o saldo do cartão de crédito e tingir as toalhas e este quarto é uma bosta e começas a ver celulite nos pulsos. Encontras celulite nos pulsos às três horas da manhã. Seja o que for para pensares noutra coisa que não o que se está mesmo a passar. O que tu sentes mesmo, o que tu sentes mesmo a sério é tão…Só tu no planeta. E depois vi-o…O rapaz da bomba de gasolina no seu aquário… Joel - Ainda estás com medo. (Lyndsey acena que sim) Arranja um puto…Eu adoro o cheiro do hálito dele…Deixo-me estar deitado no beliche de cima. A ouvir…Põe-me sóbrio…Ajuda-me a lembrar para tirar as garrafas vazias e limpar os cinzeiros antes de ele se levantar…Devias arranjar um desses… … Lyndsey - Eu não vim à procura de…Eu não vim… Joel - Eu sei. Não está errado. Querer alguém. Não está errado querer só estar com alguém… Lyndsey - Não quero que fiques com a ideia errada…Não quero… Joel - Podíamos estar só deitados juntos… Lyndsey - Eu só acho… Joel - Podias ouvir-me. Só ouvir a minha respiração…Estou demasiado cansado para ser honesto mas podias estar só comigo. Lyndsey - Percebes, é que eu continuo a bater no PVC e ele diz, “Ouça…Não o posso deixar entrar…É temporizado…Não abre até ao próximo turno…” Eu digo.. “Isso é perigoso…Isso é mesmo muito perigoso…” Ele olha para mim…como se fosse eu dentro do aquário… “Tem um detector de incêndios e eu tenho um número de emergência em caso de acidente.” Ele só tem para aí vinte anos. E eu digo “Não é isso que eu quero dizer…” Eu digo “Não é isso que eu quero dizer…”
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Cena Cinco Lyndsey - E agora há um jardim. Vem para o jardim. Entra no jardim. Isso. Estás no jardim. E tem calma, faz uma pausa para admirares o jardim. (pausa) E cheira a relva. Inspira as…flores, ervas, a…a relva está molhada, o cheiro de relva molhada. Inspira, respira fundo. Sim. Um…Dois…Três…Respira fundo. (pausa) Sim. Isso. E agora um portão. (pausa) E o portão abre-se e há luz, e há uma luz brilhante e forte, e amena e desliza até ao teu corpo e sentes a luz e a luz está a curar-te. A luz desliza através do teu corpo. Sim, isso. Inspira a cura, inspira-a. (pausa) E agora – oh olha – há um caminho à tua frente. E o caminho é o teu futuro. E está a brilhar, está…embebido em luz. Não há obstáculos…nada para bloquear o caminho e começas a andar pelo caminho, em direcção ao futuro sem medo, não tens medo de nada. (pausa) Ok, agora…Vou contar de cinco até um e quando estiveres pronto vais abrir os olhos e vais acordar revigorado e calmo. Cinco…quatro…três…dois…um. (pausa) Sim? Pete - Sim. Obrigado. (beijam-se) Obrigado. Lyndsey - Conseguiste ver? Pete - Sim, sim. Lyndsey - Viste tudo? Pete - Sim, sim. Claro como água. Como te estou a ver aqui à minha frente. Sim. Lyndsey - Porque há outros. Se quiseres experimentar outro. … Lyndsey - Isto é bom. Estar contigo é bom. Pete - É muito bom. (continuam a acariciar-se até que Lyndsey se roça em Pete de maneira sexual) Não. Lyndsey - Não? Pete - Não quero…assim não. Lyndsey - Está bem. (pausa) Estava só a mostrar-te… Pete - Eu sei. Lyndsey - Ainda sinto a mesma coisa… Pete - Claro. Lyndsey - Ainda te quero. Pete - Queres mandar uma trancada? Lyndsey - Quero mandar uma trancada. Não é bem essa a palavra que eu… Pete - Eu não quero mandar uma trancada. Lyndsey - Nunca mais? Pete - Não quero…provavelmente. Nunca mais. |
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Cena Seis Lorraine - Sabes, algumas pessoas desejam ter chagas. Foi uma conclusão terrível. Pete - Qual conclusão? Lorraine - Que eu nunca iria ser a apresentadora de um Chuva de Estrelas. Adoro noções superficiais de multilinguismo. Consigo dizer “Bom Dia” em trinta e sete línguas. E “Fode-me, sou médico” em Albanês. Pete - Fazias isso, se eu fosse? Lorraine - Se fosses? Pete - Um médico. Fodias-me? Lorraine - Achas que eles chegam a fazer alguma coisa? Sempre julguei que se desmontavam e se enfiavam numa gaveta. Sim. Pete - Sim? Lorraine - Fodia-te. Se fosses um médico. Pete - Obrigado. (pausa) Lorraine - Conheces muitos? Pete - Médicos? Não tão bem como eles me conhecem a mim. Não olhes para mim. Lorraine - Estás muito doente? Pete - Muito. … Lorraine - Vens aqui..? Pete – Muitas vezes. Para flutuar. Lorraine - Eu estou… Pete - A fazer escala. Lorraine - A fazer escala, exacto. É diferente. Habitualmente afogo-me numa garrafa Johnny Walker e um co-piloto. És casado? Pete - Não. Lorraine - Como é que as conseguiste? Pete - Como é que…? Lorraine – As tuas lesões. A marca da tua doença. Como é que as conseguiste? Pete - Pedi-te que não olhasses para mim. Lorraine – Pediste-me que viesse nadar contigo. Arrancaste-me de um bar escuro. Escolheste-me como tua testemunha. Como é que ficaste doente? Pete - Fui fornicado por um homem numa varanda. … Lorraine - A tua primeira vez. Pete - A primeira vez? Lorraine - De todas. Pete - A primeira vez foi com uma mulher. Foi de morrer a rir – ela devia ter para aí quarenta anos. Eu tinha quinze. Lorraine - Mentiroso. Pete - Pronto – dezassete. Ela disse-me que eu parecia o Ringo Starr. Disse que a irmã dela tinha dormido com o Paul McCartney, disse que a música era uma coisa de família, isso e verrugas. Tinha o autógrafo da Angie Dickinson colado com fita-cola no espelho do quarto e um cortejo de gatinhos em contraplacado na parede. Lorraine - Como é que foi o sexo? Pete - Fantástico. Muito sentimental. Lorraine - Que idade é que tens? Pete - Trinta e cinco. Lorraine - Não dizem que um em cada cinco homens mente acerca da idade que tem? Pete - Trinta e cinco anos, oito meses e vinte e sete dias, a tentar chegar despercebidamente até trinta e cinco anos, oito meses e vinte oito. Eu acumulo a minha idade, percebes? Cada dia cronometrado o meu actozinho de subversão. … Pete - Conta-me a tua primeira vez. Lorraine - Nunca houve uma primeira vez. Pete - Alguma vez estiveste apaixonada Lorraine? Lorraine - Se alguma vez estive apaixonada? Estou apaixonada desde sempre. Desde a primeira vez que o vi. Queixo quadrado num bar escuro, asas douradas no uniforme. Não consigo resistir ao protocolo. Ele agora está cinco andares acima, a lamber uma cona fumegante sem dissipar o after-shave. Odeio-o. Pete - Ele ama-te Lorraine? Lorraine - Não, credo. Eu sou uma oferecida. (pausa) Pete - Eu amo-te. Lorraine - Ena, obrigada. (pausa) Pete - Quando eu morrer. Lorraine - Quando morreres? Pete - Quero ser embalado. Uma caixa eclesiástica janota cheia de cinzas e passada de mão em mão pela minha família e benzida com as acusações deles. “O que é que aquele estúpido estava a fazer inclinado numa varanda, depois de tudo o que fizemos para lhe agradar. Que direito é que ele tinha de apodrecer, depois de tudo o que fizemos para o curar. Aquele ingratozito de…”
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Cena sete Colin - Foda-se. Desculpa. Não consigo. Má ideia. Muito má ideia. Desculpa...quer dizer, julgava que uma bebida e talvez...desculpa. Lorraine - Então, o que é que aconteceu aos bons velhos tempos? Colin - Pensei que pudesse ser... Lorraine - Recordar o passado? Colin - Os teus olhos. No bar. Lá em baixo. Os teus olhos estavam vermelhos. Julguei que tinhas estado a chorar. Julguei… Lorraine - Cloro. Colin - Eh? Lorraine - Tinha estado a nadar. Colin - Ah. Certo. Lorraine - Não faças isso seu filho da puta. Estou cheia da tua condescendência. Já não aguento mais. … Colin - Sou feliz, sabes. Com a Helen. Somos muito felizes. Lorraine - Óptimo. Colin - Ela é aquilo que eu preciso. Um bocado de estabilidade. Lorraine - Tenho a certeza que ela tem os pés bem plantados no chão. Colin - Não conseguia deixar de pensar nela. Lorraine - Olha lá, é suposto eu sentir-me melhor com isto? (pausa) Colin - És feliz? Lorraine - Colin, vai-te foder. … Colin - Lorraine? Credo. Estas paredes devem ser de papel. Lorraine - Talvez eles estejam só a ser barulhentos. Habitualmente são. Colin - Eles quem? Lorraine - Ela é a loira oxigenada com os tornozelos grossos para quem estavas a olhar feito parvo no bar. Colin - E ele? Lorraine - Ele é aquele em quem eu estava a pensar enquanto tu me fodias. Para dizer a verdade, era sempre nele que eu estava a pensar enquanto tu me fodias. Colin - É aquele gajo que é piloto, não é? Lorraine - É o gajo que era suposto parar e dizer-lhe que não pode continuar porque não consegue deixar de pensar em mim. Mas ele nunca faz isso. Colin - Porque é que me quiseste ver, Lorraine? Porquê esta noite? Depois de… Lorraine - Queria lembrar-me de como é que era. Como é que era ser amada. Colin - Até por mim. Lorraine - Até por ti. Colin - E? Lorraine - E não pude. Colin - Acho que é melhor ir para casa.
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Cena Oito Helen - Alguém telefonou para ti hoje. Estás gelado. Colin - Até aos ossos. Quem? Helen - Sei lá. Eu não sei. Colin - O que é que disseram? Helen - Nada. Colin - Homem ou mulher? Helen - Homem. Colin - O que é que ele queria? Helen - Não disse. Era contigo. Colin - Quem era? Helen - Não sei. Colin - Desculpa. Helen - Não leio mentes. … Colin - Eu amo-te. Eu sempre te amei. Helen - A primeira vez... Colin – Comigo... Helen - Não. A primeira vez de todas. Eu fui ter com ele ao quarto dele, ele estava a dormir com um elástico à volta do crânio. Eu sabia que era algo de muito privado. Colin - Já me contaste. Helen - Ele era tão novo. E era tão bonito. Colin - Vocês eram novos. Helen - Foi tão simples. Parecia bíblico. Nessa tarde ficámos deitados numa carrinha com tecto de abrir em cima de grades de Coca-Cola. Uma vez estivemos deitados debaixo de um pórtico. Colin - Abraça-me. Helen - Não te quero abraçar. Colin - Estás só cansada. Helen - Não estou cansada. Colin - Acabaste de dizer. Helen - Não interessa o que é que eu acabei de dizer. Colin - Não me chateies Helen. Helen - Não me chateies Helen. Porque é que não me podes foder? Colin - Não quero foder-te. Quero abraçar-te. Eu amo-te. Helen - Pára! Pára de dizer “Eu amo-te”. Eu amo-te. Eu amo-te. Eu amo-te. Eu amo-te. Eu amo-te comer. Eu amo-te beber. Eu amo-te cagar. Eu amo-te cadáver velho, vazio, com varizes, comido pelos peixes, cheio de vermes, eu amo-te. Colin – Vê lá se dormes. Estás cansada. (pausa) Helen - É melhor encontrares alguém Colin. Encontra alguém e fode esse alguém. Colin - De que é que estás a falar? Helen - Era a Lorraine. Colin - O quê? Helen - Ao telefone. A Lorraine foi a pessoa que telefonou hoje. Colin - O que é que ela...? Helen - Queria? Estava a vender seguros de vida, acho eu, ou talvez fosse forros para cortinados. Como é que ela está? Colin - Eu não planeei... Helen - Achas mesmo que isso me interessa? Colin - Ela estava aflita...um... Helen - Colin, eu estou a par dos teus saltos pueris por cima do muro do pomar. Não é isso, nunca foi isso... Colin - Eu juro que não... Helen - São os teus regressos a casa trémulos para receberes uma chávena de pele familiar e de compaixão. A tua satisfação húmida por eu ainda ser a mais bela. Colin - Pára com isso Helen. Helen - Sou tão desgastada por ti. Tão... farta de ti. Colin (calmamente) - Quem é ele Helen? Hmmm? Quem? (levanta-se) Quem é ele Helen? Quem caralho é que é? Helen - Não interessa, nunca interessa.
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Cena Nove Helen - Odeio ter de esperar. Greg - A antecipação já é metade do prazer. Helen - Que se foda a antecipação. Podia ficar assim o dia todo. Greg - Não sei se conseguia aguentar. Helen - Demasiada antecipação. Greg - És doida. Helen - Talvez seja. Greg - Tenho de ir a Lisboa esta tarde. Não quero perdê-lo. Helen - E preferes ter saudades minhas? Greg - Tenho de ir. Helen - Fica. Greg - Não posso. Como é que foi a tua semana? Alguma coisa de excitante? Helen - O Colin bateu-me. (pausa) Eu disse que o Colin… Greg - Eu ouvi. … Greg - Tenho noção do tempo. Só isso. A maioria das pessoas tem. Até tu. Helen - Não aos dez anos. Greg - Aos doze então? Quinze? Como é que podes ter tido o teu primeiro encontro se não sabias a que hora é que tinhas de te encontrar? Helen - Encontros e horas. Horas e encontros. Greg - Podes devolver-mo, por favor? Tenho de me ir embora. Helen - Aos doze anos não tinha um relógio. O meu tempo passava mais devagar. E eu passava o tempo todo a imaginar como é que ia ser quando fosse grande. Também fazias isso? Greg - Claro. Carros voadores e viver na lua. A água… Helen - O que eu quero dizer, é como é que tu serias. O que é que ias estar a fazer. O que é que terias feito. Pensavas nessas coisas? Greg - Claro. Helen - E agora. Alguma vez pensas naquilo que afinal és, naquilo que estás a fazer. No que fizeste? Fazes isso e perguntas-te o que é que correu mal? Greg - Eu queria ser um astronauta. Helen - Eu queria ser feliz. |
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… Helen - Ficaste triste quando percebeste que não ias ser um astronauta? Doeu? Greg - Não. Já não era importante, já me tinha passado. Helen - Já não era importante, já te tinha passado? A tua ambição fervorosa, ardente? Greg - Era só uma fase. Helen - Uma fase? |
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Greg - Passou. Tudo passa. Helen - Não tem de passar. Greg - Passa. Helen…Passa! Helen - Não. Ouve. Se quiseres mesmo qualquer coisa… Greg - Não interessa. Helen - Se acreditares mesmo… Greg - O tempo não se interessa por aquilo em que acreditas. Simplesmente continua a andar. E é tudo temporário. Nós todos. Isto tudo. Helen - Nós? Isto? Greg - Eu não quis dizer… Helen tu sabes…nós sabemos os dois qual é a situação, não é. Eu tenho mesmo de ir. Helen - A situação? Greg - Temporário não quer dizer breve. Helen - Como é que podes… Greg - O quê? Helen - Não…Não queres acreditar que algumas coisas…Uma coisa…Que uma coisa só possa…permanecer…Não queres isso? Não precisas disso? Greg - É uma ideia bonita… Helen - Mas..? Greg - O que nós queremos não interessa. O desejo não altera os factos. Helen - E se o desejo fôr o facto? E se o desejo fôr o único facto que interessa? E se a física fosse baseada na paixão? E se a química fosse acerca do amor? E se o mundo girasse por um capricho e a gravidade viesse do coração? E se isto fosse esse tal sítio? Nós. Aqui. Agora. Se isto fosse o mundo e nós pudéssemos viver nele? E se? Ficavas? Greg - Tenho de ir. Helen - Fica. Greg - Não posso.
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Cena Dez Annie - Então, Greg. Primavera, Verão, Outono ou Inverno? Greg - Francamente, não sei. Anne. Annie - Annie. Tente bochechar, Greg. Bocheche antes de engolir. Para algumas pessoas isso ajuda. Greg - Se quiseres.
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Annie – Então? Não pense Greg. Prove e diga logo. A estação do ano que esta cola me faz lembrar é…blah, blah, blah. Ok? Greg - Vou-me embora. Annie - Não. Por favor. Greg - Isto é uma estupidez. Não quero fazer isto. Não tenho tempo para isto. |
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Annie - Por favor. Isto é importante para mim. Sou paga por cada questionário preenchido. E preciso de mais homens. Para o meu registo. Já tenho muitas mulheres e agora preciso de homens mais ve(lh) – homens no seu círculo demográfico. Não posso dar-me ao luxo de perder tempo. Tenho de preencher quatro destes para conseguir ganhar dois euros por hora. Não posso dar-me ao luxo de desperdiçar dez minutos. Então. Primavera, Verão, Outono, Inverno? … Greg - Alguém que se importa com o tempo devia ter um relógio. Eu tenho vários. Annie - Se esta cola fosse uma estrela de cinema feminina…Relógio de parede. Vou olhando para aquele relógio de parede…se esta cola fosse uma estrela de cinema feminina diria que esta cola é…? Greg - Alguém devia comprar-te um relógio. Winona Ryder. Annie - A sério? Isso é muito interessante Greg. Porque é…dê-me algumas palavras. Greg - Petulante…cintilante…acolhedora. Seria normal presumir que os teus pais te tivessem dado um relógio. Annie - Nunca vejo os meus pais. Próximo item. Greg - Isso é muito triste. Ou talvez o teu namorado. Annie - A outra cola. Mesma pergunta. … Greg - Muitas mulheres jovens hoje em dia parecem muito sozinhas. Telemóvel agarrado à cabeça como se fosse preciso um cirurgião para o remover. E falam para ali vinte e quatro horas por dia. “Estou sozinha, estou sozinha”. Annie - Se pudesse escolher, Greg. Uma noite com a Winona Ryder ou uma noite com a Sharon Stone? Qual é que escolheria? Greg - Isso não me parece muito provável. Annie - Sim. Mas hipoteticamente. Greg - Olha, se queres saber que tipo de cola é que eu prefiro, então pergunta. Vamos deixar de lado esta treta. Vamos ser honestos um com o outro Anne. Que nome é que os teus pais te deram? Annie - Por favor. É assim que eles fazem no questionário. É assim que eles gostam de fazer. Por isso se pudesse só…Com qual é que escolhia dormir? Greg - Não escolhia nenhuma delas. Annie - Mas se tivesse de escolher uma. Greg - Não escolhia. Sabes quem é que me agrada Anne? Sabes o que é que agita a minha besta adormecida? Sabes? Annie - Annie está na minha certidão de nascimento. É mesmo o meu nome. Greg - Não tenho fantasias com mulheres que nunca hei-de conhecer. Quem é que precisa de fazer isso quando à nossa volta há tantas mulheres? Mulheres sozinhas que só querem alguém que se aproxime delas. Annie - Está a responder à minha pergunta? Greg - Sabes Anne – acho que estou. Quem é que precisa de escolher a Sharon ou a Winona, petulante ou sem cuecas, quando todas os dias uma pessoa se encontra cara a cara com uma mulher a sério. Uma mulher sozinha, a sério. … Greg - És muito contida não és Annie? Montes de gente desenvolve isso como método de se irem safando. Às vezes acho que não me devia abrir tanto. Uma pessoa abre-se e depois magoa-se. Annie - E finalmente, descreveria a sua relação com cada uma destas colas como sexo ocasional, um caso amoroso, um casamento ou um reencontro de amigos? Greg - O quê? Annie - Eu sei. Não sou eu que invento isto. Só faço as perguntas. A sua relação com estas colas é… Greg - Nenhuma relação. Annie - Por favor. É só escolher uma. Greg - Hoje ensinaste-me uma coisa Annie. E estou-te grato por isso. Ensinaste-me a não me abrir com as pessoas. Annie - Diga alguma coisa. É a última pergunta. A minha relação com estas colas é… Greg - Não. Sou celibatário. A partir de agora sou um monge com uma vasectomia e nenhuma libido. Annie - Mas não tenho nenhum quadradinho para isso.
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Cena Onze Ryan - Mas gostaste? Mesmo? Pensei que podias apanhar um bocado de seca. É um filme antigo e muita gente… Annie - Foi altamente. Adorei. Ryan - A sério? Mesmo? Não estás só… Annie - Mesmo. Ryan - Dá para alugar em vídeo mas é muito melhor num écran grande. Annie - Aquela parte em que ela vai à procura do Cat… Ryan - Eu sei. Annie - E ela era tão bonita. Ryan - Pois é. Era mesmo. Ainda bem que gostaste. Estava com esperança que gostasses. … Ryan - Não dá para ouvir nada. A aparelhagem está estragada. Annie - Oh. Ryan - Mas olha. Podemos dançar. Annie - Sem música? Ryan - É fácil. Anda cá. Agora pensa num bom tema para dançar. Annie - Não me consigo lembrar de nada. Ryan - Qualquer coisa. Annie - A canção no filme. Ryan - “Moon River”. Ok. Boa. Agora lembra-te dela. Põe-a a tocar na tua cabeça. Vá lá. Annie - Ok. Ryan - Está a tocar? … Annie - Que foi? Ryan - Fizeste-me lembrar uma coisa. Um poema. A minha avó ensinou-o a mim e à minha irmã quando éramos pequenos. É pateta. Annie - Não. Diz. Ryan (com as mãos a tapar as orelhas) - Que os meus ouvidos ensurdeçam antes de te ouvir mentir. (com as mãos a tapar os olhos) Que os meus olhos fiquem cegos antes dos teus encantos se perderem. (com os dedos nos lábio.) Que os meus lábios emudeçam antes de me despedir. (com a mão no coração) Que o meu coração pare antes de os meus braços te largarem. Annie - É lindo. … Ryan - Há tanto tempo que te queria beijar. Perguntava-me como é que seria. Julgava que nunca ia chegar a saber. Annie - Porquê? Ryan - Reparei em ti. Tu eras...eras diferente. Annie - Diferente? Ryan - Especial. Achei que parecias especial. Annie - Não sou especial. Ryan - És sim. Annie - Achas? Ryan - Claro. Foi disso que eu gostei em ti...tipo...é isso que eu gosto. Annie - Não sei o que hei-de dizer. Ryan - Diz que ficas. Aqui. Esta noite.
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Cena doze Ryan - Está trancada. Sarah - Um Marlboro Lights. Trinta e oito por cento do sector feminino entre os 23 e os 35 anos expressa uma preferência por Marlboro Lights com base num desejo de deixar de fumar. Estou a ver que estás a beber... Ryan - Huh? Sarah - Cola. Estás a beber a cola. Ryan - Pois...Quer gasolina? Sarah - Não obrigada. Ryan - Sim. Sarah - Quero qualquer coisa...Quero um...Quero uma lata dessas... … Ryan - Eu chamo o segurança. Sarah - Dizes-me o teu nome? Ryan - O alarme dispara se ficar aí na frente de loja tempo demais. Sarah - Por favor... Ryan - É o meu PIN de segurança. Não podemos dizer os nossos nomes verdadeiros. Sarah - Essa cola… Gostas do sabor dessa cola. Ryan - Estava com sede. … Ryan - Estava junto à caixa. Sarah - Estava junto à caixa e – Ryan - Quer mais alguma coisa? Sarah - E? Ryan - O quê? Sarah - Estava junto à caixa e...Porquê? Em que é que pensaste? Antes de te baixares? Prateleiras e mais prateleiras de outras marcas, outros sabores mas qualquer coisa te fez escolher este. Estava junto à caixa, na prateleira de baixo, não era fácil de tirar, mas se és um Spice sabes o que queres, o que realmente queres e – Ryan - Daquele lado, não dá para ver nas câmaras. … Sarah - Estás a ler? Ryan - Em caso de acidente ou numa emergência... Sarah - Quero ver. Ryan - Não é nada. Sarah - Mostra-me. “Rom o Cavaleiro do Espaço”... Então que é que ele faz? Ryan - É um Cavaleiro do Espaço... Sarah - A sério... Ryan - Pois. Sarah - Portanto ele é um Cavaleiro do Espaço... Ryan - Não foi sempre. Ele costumava trabalhar numa quinta com...Judy... Sarah - A mulher líndissima dele...? Ryan - Pois. Sarah - Vestida com flanela. Ryan - Isso é aquela coisa aos quadrados? Está a bloquear a frente de loja. Sarah - Ele é bom para a mulher?
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Ryan - Um...ela já não aparece mas...Ele leva-a a jantar fora e cultiva os campos e cenas assim. Ela põe coisas em jarras. Têm um puto e depois... Sarah - Que comovente. Ryan - Já não o lia há muito tempo...Já não o leio...Só que...hoje...Qualquer coisa me fez – só – folheá-lo outra vez. Eu não...
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Sarah - Anima-te, Cavaleiro do Espaço. … Sarah - Conta-me o resto da história. Conta-me...Quando é que ele percebeu a sua vocação? Ryan - Um. Um dia. Quando estava num campo a olhar para o milho. Há um cão a ladrar e um rapazito a tentar agarrar a cauda do cão e a Judy está vestida com aquela coisa aos quadrados e a estender a roupa e de repente...um clarão de luz ofuscante e... Rom. Foram-nos enviadas as forças do bem e do mal. Chegou o momento. Foste escolhido para te para pertenceres à nossa equipa de guerreiros, transforma o teu coração em aço e torna-te o solitário Cavaleiro do Espaço, viajando pelo universo, e derrotando os senhores da escuridão. Sarah - Portanto ele transforma o coração em aço e salta para dentro da nave e descola para ir salvar o mundo. E às vezes quando cheira um perfume caro ou é tocado por algo familiar, ele pensa na...Como é que ela se chama? Ryan - Judy. Sarah - E aparece-lhe uma lágrima ao canto do olho. Completamente sozinho. A cada três luas...Pobrezinha da Judy. Ryan - Ele está-se bem a cagar para a Judy. Está – se bem a cagar...os Cavaleiros dos Espaço não precisam dela...Eles lutam, e salvam vidas e fodem com extraterrestres lindíssimas com mamas verdes e donzelas espaciais de saltos altos prateados e são altamente...São mesmo...altamente. Sarah - Que idade é que tu tens? Ryan - Dezanove... Sarah - Sabes Viriato, quando eu tinha dezanove anos, queria que me abraçassem com muito carinho, muito perto, e queria alguém que me amasse e que eu amasse e que esse alguém se preocupasse comigo e risse comigo e vivesse comigo e morresse comigo. Alguém que me fizesse festas no cabelo, e me tocasse e me tivesse nos braços e me dissesse que me admirava imenso e eu ia querê-lo e ele ia querer-me a mim e ele não ia com esta e com aquela. Ia só ficar deitado ao meu lado, ficar quieto, ficar comigo, amar-me só a mim...a mim...Achas que isso é possível? Ryan - Você é esquisita. Sarah - Esta noite vamos acender a lua. Ryan (sarcástico) - Ena. |
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Ficha
técnica Encenação:
trabalho colectivo |
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