striptease
adaptação de textos de Sacha Guitry, André Frédérique, Alphonse Allais, Pedro Almodóvar e outros

Mendigo - Perdi a perna direita...

Senhora (fechando a porta) - Não está aqui.

*

Pajem - O Rajá morre de tédio. Sofre terrivelmente de tédio e nada pode mitigar a sua dor, porque ele tem tudo, é dono de tudo, e por isso nada o interessa. Não se riam estupidamente, porque ninguém sabe como é horrível o sofrimento de um Rajá.
Nos jardins do palácio, a escolta espera o Rajá. Os elefantes também o esperam. Porque hoje é o dia marcado para o Rajá sair à caça do tigre. Mas, um gesto de tédio do Rajá indica ao intendente que o senhor não está interessado em caça.

Rajá - A escolta que volte para as sua casernas. Os elefantes que recolham também. E venham as bailadeiras para me distrair.

Pajem - Mas as bailadeiras também não conseguem afastar o tédio do Rajá.

Rajá - Recolham as bailadeiras! Todos os dias, bailadeiras é muito aborrecido.

Pajem - O Rajá está cansado de bailes.

Rajá - Esperem! Está ali uma bailadeira muito bela. Eu nunca a vi... Dança tu sozinha, jovem e bela bailadeira, para me distraíres.

Pajem - E a bailadeira dança.

Rajá - Oh! Como dança bem! Que encanto, que graça, que leveza nos seus movimentos!

Pajem - E eis que, ao ritmo da música e não parando de dançar, a bailadeira vai tirando as peças de roupa que traz vestidas. O semblante do Rajá ilumina-se. A cada peça de roupa que ela tira, o Rajá solta um grito, depois uma exclamação.

Rajá - Tira mais!!!

Pajem - E a bailadeira não pára de despir peças de roupa.

Rajá - Mais ainda!!!

Pajem - Já está completamente nua, a bailadeira!

Rajá - O seu corpo é uma obra prima de escultura!

Pajem - Tem uma pele macia, tépida, não se sabe se dum tom muito claro de bronze ou de um rosado marfim. O Rajá entusiasmado continua a gritar.

Rajá - Mais ainda!!!

Pajem - A pobre bailadeira percorre o corpo com as mãos, como se procurasse algum pedaço de tecido que porventura esquecesse. Mas não: está nua e bem nua, a bailadeira!

Rajá - Mais ainda!!!

Pajem - O intendente faz então um gesto aos escravos e eles avançam para a bailadeira armados de punhais muito afiados. Habilmente começam a tirar a pele à bela bailadeira. A moça suporta a operação por amor ao Rajá. Para que o Rajá não se aborreça! E eis que agora a bailadeira não é mais do que uma peça anatómica, sangrando e fumegando. Toda a gente se retira por descrição.

Rajá - Finalmente um divertimento novo!

Pajem - Agora, o Rajá já não morre de tédio.

*


João - Batia a meia noite quando me deitei. Tivera um dia muito agitado e pensei que seria fácil adormecer. Porém não foi assim. Momentos depois de apagar a luz, ouvi o som quase imperceptível, de uma gota caindo. Depois outra... E outra.... Comecei a ficar nervoso. Faltou-me a decisão necessária para me levantar e impedir o gotejar que me tornava insone. E a gota continuava a cair com o seu monótono ruído. Dei voltas na cama. Durante horas, o pingo implacável afugentou o meu sono. Era dia claro quando consegui dormir. Às três da tarde acordei bem disposto. Sorri ao lembrar-me do meu nervosismo nocturno da minha insónia provocados por uma simples gota caindo... Uma simples gota que caía do cadáver do meu tio Gustavo que eu assassinara na noite anterior.

*

Cátia - Quem é aquele tipo tão magro?

João - É um lutador!

Cátia - Parece impossível!

João - Pois é verdade. Há anos que ele luta contra a tuberculose.

Cátia - A sério? Que cena...

*

João - Durante estas férias de verão habitei uma vivenda vizinha da casa de uma velha bruxa, a mulher mais odiosa que já me foi dado a conhecer. Viúva de um caixeiro viajante a quem, certamente, matou de desgostos, esta megera aliava a impertinência mais desagradável à mais sórdida avareza, tudo isto disfarçado sob uma capa de humildade e devoção levada aos extremos. Hoje está morta ; paz à sua alma.

Cátia - Está morta, e eu ri-me, deliciado, quando a vi agitar os magros braços e tombar inanimada sobre a relva do seu ridículo jardinzinho. Assisti a todo o drama ou melhor, fui eu o seu autor e guardarei na minha memória essa aventura como a coisa mais deliciosa que já fiz ao longo de toda a minha existência. Aquilo tinha de acontecer. Eu não podia mais! Nem dormia só com a ideia de que era vizinho de uma tão horrorosa criatura. Consegui matá-la usando um processo pouco comum. Planeei uma série de partidas de mau gosto mas que revelam muita imaginação.

João - A minha vizinha dedicava-se à jardinagem. Contra as ervas ruins, contra os insectos nocivos, tinha remédios eficazes que espalhava nos seus canteiros. A caça que desencadeava aos caracóis era um empreendimento épico digno de ser cantado numa epopeia.

Cátia - Num dia em que caíra sobre a região uma forte chuvada, convoquei dezenas de rapazes para irem caçar caracóis. Caracóis, lagartas, gafanhotos, tudo enfim que fosse capaz de ajudar a destruir as culturas. Prometi bons prémios aos que fizessem a melhor caçada. Jamais vi tanto molusco e tanto insecto destruidor. Eram caixas deles! Guardei-os sem os alimentar durante dias, findos os quais soltei todo o exército esfomeado no jardim da minha vizinha. Foi uma razia! Em 24 h, árvores, arbustos, flores, erva, tudo ficou reduzido à expressão mais simples. Nunca me ri tanto na minha vida! À janela do meu quarto observei aquela obra de devastação e deliciei-me.

João - A minha vizinha saía então de casa para a missa das dez. É impossível descrever o seu olhar alucinado. Deu, correndo, 2 voltas ao jardim e depois parou cambaleando com os olhos muito abertos. Cheio de contentamento pensei que ela ia morrer. Mas, infelizmente, não. Baixou a cabeça levou o lenço aos olhos e lá seguiu para a missa, contar as desgraças a Deus Nosso Senhor.

Cátia - O meu passatempo era pois organizar estas brincadeiras que atingiram o auge com uma magistral partida que levou a velha para as mãos de Deus Padre e muito me divertiu. Eis como as coisas se passaram: A velha megera tinha um gato. Negro, magro mas enorme. Às vezes o animal vinha passear e deitar-se ao sol do meu jardim. Um dia, ao amanhecer, acenei-lhe com um carapau e apanhei-o. Meti-o num banho de sulfureto de bário.


João - A noite estava escura. Uma noite sem estrelas e sem lua. Inquieta por não ver entrar seu tareco, a velha bruxa chamava ele.

Cátia - Polito! Polito! Vem cá meu Politozinho!

João - Mas que raio de nome de gato! Subitamente solto por mim, cego de raiva e de medo, Polito galgou o muro que separava os nossos jardins e correu como um louco para a sua dona. A horrível velha soltou gritos pavorosos.

Cátia - Belzebu! Belzebu!

João - Vi-a largar a lanterna que segurava na mão e tombar inanimada na relva. Quando os vizinhos, alertados pelos gritos, acudiram, era demasiado tarde: eu já não tinha vizinha.

*

Cátia - Rosa gostava de andar de bicicleta com o seu vestido de cabedal rosa choque. Todos os dias, pela manhã dava a sua voltinha pela rua e voltava a arrumar a bicicleta na garagem. Os pais já a tinham avisado se voltasse a sair de casa sem fazer a cama lhe tiravam a bicicleta. Rosa não gostava de receber ordens e detestava fazer a cama. No dia seguinte voltou a fazer o mesmo. Quando chegou a casa , pegou na mochila e foi para a escola. No regresso das aulas, apeteceu-lhe passar pela garagem para olhar para a sua linda bicicleta, só que ela já tinha desaparecido. A Rosa rapou a cabeça e as sobrancelhas e passou a dar a voltinha pela rua a pé.

*

João - Isto aqui é muito bonito e tem muito bons ares! Só é pena haver tantas moscas. Não sei como elas não vos incomodam.

Cátia - Temos um remédio para nos vermos livres das moscas.

João - Ah! Sim!? É D.D.T.?

Cátia - Não. É um remédio mais económico, um remédio caseiro. Pomos o avô todo nu e untamo-lo com mel. De maneira que as moscas só o incomodam a ele.

João - Pobre homem. Deve passar o tempo a enxotá-las...

Cátia - Não pode. É tetraplégico.

*

Cátia - O peixe está muito caro. A carne nem se fala. O pão sabe a plástico. A fruta custa os olhos da cara..

João - Queixava-se a vizinha do António. Farto de ouvir sempre a mesma história decidiu pôr uma bomba na peixaria, uma no talho, uma na padaria, uma na frutaria e divorciar-se da vizinha.

*

João - Nasci a 28 de Abril de 1882 na pitoresca aldeia de Tortisembert. Os meus pais tinham ali uma mercearia. A família era numerosa. A mamã ficara com dois filhos do primeiro casamento e, de meu pai, tinha quatro raparigas e um rapaz. Em minha casa vivia também a mãe do meu pai e o pai da minha mãe. Havia ainda um tio surdo mudo. Em resumo: éramos 12 à mesa.

Cátia - Mas, de um dia para o outro fiquei só no mundo. Apenas por causa de um prato de cogumelos venenosos. Escapei à morte porque tinha tirado, nessa manhã, oito tostões da gaveta da cómoda para comprar rebuçados. O meu pai pusera-se aos gritos.

João - Roubaste oito tostões meu grande patife!? Pois ao almoço não comes cogumelos.
Tinha sido o meu tio surdo mudo quem apanhara esses venenosos vegetais. À noite havia onze cadáveres em casa. Quem viu onze cadáveres juntos, não pode imaginar a quantidade de cadáveres que isso é. Não sei se sofri muito com o acontecimento, mas parece-me que não.

Cátia - Eu tinha então 12 anos e - deve compreender-se - era uma tragédia demasiado grande para uma pessoa de tão pouca idade. Fui, digamos ultrapassado pela catástrofe e, sem grande experiência em coisas horrorosas, apenas senti que não era merecedor de uma hecatombe daquela grandeza. Podemos chorar a mãe, o pai ou um irmão morto.. Mas, como chorar simultaneamente, onze pessoas?! Não sabemos sequer por onde começar e acabamos por não chorar ninguém!

João - O Dr. Lavignac, chamado à pressa, desdobrou-se em actividade, mas foi tudo em vão. A minha família extinguia-se inexoravelmente. O senhor prior, que almoçara em casa da Condessa de Beauvoir, chegou, de bicicleta, às quatro horas. A sua presença era bem necessária. Todos os habitantes da aldeia vieram a nossa casa. Andava uma multidão pelos corredores e pelos quartos a saber notícias.

Cátia - Eu, aflito, escondi-me atrás do balcão da mercearia e dali assisti ao drama. Os primeiros falecimentos foram anunciados no meio de lágrimas e gritos, como é tradicional. Mas, a partir do quarto ou quinto, as notícias tornaram-se lacónicas.

João - Mais um.

Cátia - Eu ouvia pedaços do diálogo.

João - Ainda não, mas dura um quarto de hora.

Cátia - O tio surdo-mudo faleceu no meio de dores atrozes, aos gritos, o que causou espanto a toda a gente. Às sete tudo estava consumado. Saí então do meu esconderijo e, quando o médico me viu, não foi capaz de esconder o espanto.

João - Então e tu?

Cátia - Nesta pergunta havia, simultaneamente, raiva e admiração. O que ele queria dizer, era...

João - Mas, porque diabo ainda estás vivo????

Cátia - De facto, que direito eu tinha de não me encontrar estendido para sempre, como os outros? O que era eu mais do que eles? O médico continuava a mirar-me de olhos muito abertos.

João - Tu não sentes nada?

Cátia - Confessei-lhe que não sentia.

João - É espantoso!

Cátia - Encarou-me como se fosse um fenómeno ou um espírito maligno.

João - Uma criança de 12 anos que come impunemente cogumelos venenosos, deve ser um caso interessante para a medicina. Que campo de experiências!

Cátia - Era isso que devia pensar o Dr. Lavignac quando me olhava como se olha uma cobaia. Imaginei-o debruçado sobre as minhas vísceras à procura da verdade. Apressei-me a explicar-lhe: Eu não comi...

João - O quê?

Cátia - Essa pergunta não me soou bem talvez fosse apenas deformação profissional, mas juro que o tom com que pronunciou aquelas palavras era reprovativo. Repetiu ainda duas ou três vezes.

João - O quê?! O quê?!

Cátia - Assustado, achei preferível contar-lhe a verdade. O médico ouviu boquiaberto. No dia seguinte toda a aldeia sabia. No funeral, enquanto os onze caixões seguiam à minha frente em fila indiana, tive a desagradável sensação de ser o assassino de toda a família. A multidão acompanhava o enterro e, aqui e além, segredava-se não tão baixo que eu não pudesse ouvir.

João - Sabem porque é que o pequeno não morreu? Porque roubou!

Cátia - Era verdade: Eu estava vivo porque roubara. Logicamente, concluía que os outros estavam mortos porque eram honestos...

*

João - O João cantava tão bem que a mãe um dia parou de descascar favas só para o ouvir. Hoje o João é cozinheiro e agradece à mãe.

*

Cátia - Manuel José era um arrumador de carros muito bem sucedido. Pode-se mesmo dizer que conhecia umas quantas estrelas de cinema e de vez em quando até lhes fazia uns favorzitos. O seu aspecto não era dos melhores, mas isso não impediu Liliana de se casar com ele.

*

Mordomo - Senhor marquês, o jantar está servido.

Marquês - Só vejo um talher na mesa...

Mordomo - É que a senhora está indisposta. Não desce.

Marquês - Bem sabes que não me preocupo com a saúde da minha mulher. Mas devias lembrar-te que hoje é o dia da caridade e costumo ter, todos os anos, um pobre sentado à mesa para jantar comigo. Onde é que está o meu pobre?

Mordomo - Que o senhor marquês me perdoe mas não consegui caçar nenhum. O último que existia morreu de frio sentado à porta do palácio. Vossa excelência deve recordar-se .

Marquês - Que ingrato! Enfim...( suspiro ) Mas tu não me vais querer-me fazer acreditar que não haja um pobre na região... E a Maria Coxa?
Mordomo - Recebeu a herança do tio e já não anda a esmolar.

Marquês - E o António Maluco?

Mordomo - Reformou-se.

Marquês - E o Pilha-Galinhas?

Mordomo - Está a cumprir dois anos de cadeia.

Marquês - Não o deixarão sair por uma hora apenas para vir jantar comigo?

Mordomo - Não é costume lá na prisão.

Marquês - Porcaria de prisões. Oh! Santo Deus! Que tempos estes! Já não se arranja um pobre para podermos praticar uma boa acção, ao menos uma vez por ano? Ai que desgraçada vida! ( chora )

Mordomo - O senhor marquês permita-me interrompê-lo no seu choro, mas tem a sopa a arrefecer.

Marquês - Hoje não janto sem ter um pobre à mesa. Já disse. Pronto. Vai procurá-lo imediatamente.

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Mordomo - Alegre-se, senhor marquês, já temos um.

Marquês - Um quê?

Mordomo - Um pobre.

Marquês - Já não era sem tempo. Estou com uma fome de lobo. Como é que ele é?

Mordomo - Tem boa pinta.

Marquês - É divertido? Espero ao menos que saiba algumas anedotas. O que tivemos o ano passado era sinistro. Passou todo o jantar de boca fechada, excepto para comer, evidentemente.

Mordomo - Esse era um surdo-mudo, senhor marquês. Este é cego. Mas trata-se de um falso cego. Usa esse truque porque, segundo diz é o que proporciona mais esmolas. As pessoas gostam de dar esmolas a cegos porque estes não vêem a quantia que lhes deitam no chapéu.

Marquês - Bem, vou receber contiguamente esse infeliz. Manda tocar o quarteto de cordas. Diz a esse desgraçado que entre. É um costume bem simpático, este de jantar todos os anos com um pobre. Durante 365 dias fico com a consciência tranquila, apenas porque aguentei o frete de aturar um imbecil durante duas horas.

( entra o pobre )

Mordomo - Tira o chapéu, desgraçado. Aqui tem vossa excelência o pobre que pediu.

Marquês - Entra, não tenhas medo, amigo. Vem cá. Está descansado que não te como. Deste-lhe um banho?

Mordomo - Não, senhor marquês. Ele recusou terminantemente.

Marquês - Ao menos deita-lhe um bocado de água de colónia em cima. Ele cheira mal... Aqui em casa há o costume de aspergir as pessoas com água de colónia. Não achas bem?

Pobre - Hãaa...

Mordomo - Não sabes responder " sim, senhor marquês "? Custa-te alguma coisa ser educado?

Pobre - Hãaa... ( arroto)

Marquês - Põe um pano a cobrir a cadeira dele. Esta besta deve ter piolhos. Senta-te, bom homem. Não faças cerimónias. Gostas de música? Providenciei para que o quarteto tocasse alguns trechos de Vivaldi. Que tal achas a música do Vivaldi?

Pobre -Hãaa...

Marquês - Pois eu adoro Vivaldi.

( entretanto o mordomo com um pulverizador, encharca o pobre com água de colónia )

Pobre - Eh lá! Eh lá! O que é isso?

Marquês - É água de colónia ingrato.

Pobre - Pare lá com essa merda.

Marquês - É lavanda inglesa importada directamente de Bristol.

Pobre - Quero lá saber...

Mordomo - É que ele não está habituado a estes luxos.

Marquês - Serve-o de um pouco de caviar.

Pobre - Não.

Marquês- Come então o que mais te apetecer.

Pobre - Não quero nada.
Marquês - Mas porquê?

Pobre - Porque não tenho fome.

Marquês - Não me faças rir. Um pobre que não tem fome! Mas que raio de pobre és tu?

Pobre - Sou um pobre com a barriga cheia.

Marquês - Bem, deixa-te lá de fazer humor e começa a comer. Vá: um, dois, três, podes atacar.

Pobre - Não tenho fome porque já jantei.

Marquês - Que tempos estes! Um pobre que não tem vergonha de dizer que já jantou. Tu não tens nem sombra de brio profissional, percebeste? E onde é que tu jantaste? Talvez num hotel, não?

Pobre - Jantei em casa do senhor conde. Como hoje é o dia da caridade ele convidou-me...

Marquês - Em casa do conde? Oh! Não tem importância. Ele é um unhas de fome e aposto que não te encheu a barriga.

Pobre - Pois não, mas depois fui jantar a casa do presidente da câmara. Depois jantei em casa do notário. Depois em casa do senhor padre...

Marquês - É extraordinário!

Pobre - Hoje é o dia da caridade e tenho de comer em casa de toda a gente para fazer o jeito. Mas, agora não posso mais. Se engolisse mais alguma coisa rebentava...

Marquês - Faz um sacrifício por mim. Só um pequeno sacrifício. Come este faisãozinho recheado. Olha como é agradável. ( mastiga com um ar deliciado )
Pobre - Bebia era qualquer coisa... Para esmoer.

Marquês - Baptista, serve um copo de água ao nosso querido convidado.

Pobre - Preferia vinho.

Marquês - Ahhh! Não te dou vinho se não comeres. Pode fazer-te mal.

Pobre - Não como, não como, e não como, raios. Já disse que não como.

Marquês - (perdendo a paciência) - Baptista, ata-o à cadeira. Agora abres a boquinha, sim, meu pedaço de patife? Vês como não custa nada? (irónico) Vá, mais uma colher pelo senhor marquês... outra pela senhora marquesa... outra pelo Baptista.. outra pelo notário... outra pelo senhor padre... então?! Abre a boca, teimoso.

Mordomo - Senhor marquês parece que o homem está morto.

Marquês (sádico) - Vamos, vamos, outra pelo senhor São Pedro...

*

João - Matar é como cortar as unhas dos pés. A princípio, a mera ideia dá-te preguiça mas depois vês que foi muito mais rápido do que imaginavas.

Cátia - E achas que passará muito tempo antes de voltares a cortá-las; só que quando menos esperas, elas já cresceram de novo.


Ficha técnica
Data de estreia: 9 de Novembro de 2000 (Teatro de Bolso - TEUC)
Reposição: 14 de Maio de 2001 (Teatro-Estúdio - CITAC)
Digressão: Março de 2001 (Auditório Nascente - Espinho) e Outubro de 2001 (Sentidos Grátis - Porto)

Encenação: trabalho colectivo
Intérpretes: Cátia Faísco e João Vaz
Sonoplastia: Afonso Simões e Carlo Ruas
Luminotecnia: Madalena Bento e sal
Adereços: Carlo Ruas e Madalena Bento
Figurinos: Isabel Faísco
Fotografias: Carlo Ruas
Cartaz: Andreia Rafael