striptretta
adaptação de textos de Alphonse Allais, Pedro Almodóvar e Cátia Faísco
Mendigo - Perdi a perna direita...Senhora (fechando a porta) - Não está aqui.
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João - Batia a meia noite quando me deitei. Tivera um dia muito agitado e pensei que seria fácil adormecer. Porém não foi assim. Momentos depois de apagar a luz, ouvi o som quase imperceptível, de uma gota caindo. Depois outra... E outra.... Comecei a ficar nervoso. Faltou-me a decisão necessária para me levantar e impedir o gotejar que me tornava insone. E a gota continuava a cair com o seu monótono ruído. Dei voltas na cama. Durante horas, o pingo implacável afugentou o meu sono. Era dia claro quando consegui dormir. Às três da tarde acordei bem disposto. Sorri ao lembrar-me do meu nervosismo nocturno da minha insónia provocados por uma simples gota caindo... Uma simples gota que caía do cadáver do meu tio Gustavo que eu assassinara na noite anterior.
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Cátia - Quem é aquele tipo tão magro?
João - É um lutador!
Cátia - Parece impossível!
João - Pois é verdade. Há anos que ele luta contra a tuberculose.
Cátia - A sério? Que cena...
*Cátia - Rosa gostava de andar de bicicleta com o seu vestido de cabedal rosa choque. Todos os dias, pela manhã dava a sua voltinha pela rua e voltava a arrumar a bicicleta na garagem. Os pais já a tinham avisado se voltasse a sair de casa sem fazer a cama lhe tiravam a bicicleta. Rosa não gostava de receber ordens e detestava fazer a cama. No dia seguinte voltou a fazer o mesmo. Quando chegou a casa , pegou na mochila e foi para a escola. No regresso das aulas, apeteceu-lhe passar pela garagem para olhar para a sua linda bicicleta, só que ela já tinha desaparecido. A Rosa rapou a cabeça e as sobrancelhas e passou a dar a voltinha pela rua a pé.
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João - Isto aqui é muito bonito e tem muito bons ares! Só é pena haver tantas moscas. Não sei como elas não vos incomodam.
Cátia - Temos um remédio para nos vermos livres das moscas.
João - Ah! Sim!? É D.D.T.?
Cátia - Não. É um remédio mais económico, um remédio caseiro. Pomos o avô todo nu e untamo-lo com mel. De maneira que as moscas só o incomodam a ele.
João - Pobre homem. Deve passar o tempo a enxotá-las...
Cátia - Não pode. É tetraplégico.
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João - O João cantava tão bem que a mãe um dia parou de descascar favas só para o ouvir. Hoje o João é cozinheiro e agradece à mãe.
*Cátia - Manuel José era um arrumador de carros muito bem sucedido. Pode-se mesmo dizer que conhecia umas quantas estrelas de cinema e de vez em quando até lhes fazia uns favorzitos. O seu aspecto não era dos melhores, mas isso não impediu Liliana de se casar com ele.
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João - Matar é como cortar as unhas dos pés. A princípio, a mera ideia dá-te preguiça mas depois vês que foi muito mais rápido do que imaginavas.
Cátia - E achas que passará muito tempo antes de voltares a cortá-las; só que quando menos esperas, elas já cresceram de novo.
Ficha técnica
Encenação: trabalho colectivo
Intérpretes: Cátia Faísco e João Vaz
«O teatro há muito vem representando a vida. Mas será que alguém tenta representar o teatro? Não só o representam, como ele sai muito bem representado. O Prensa é muito mais do que uma companhia, é uma filosofia.»
Hugo Ferreira, Presidente da RUC